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Bacurau!

Luiz Carlos Merten

15 de maio de 2019 | 22h56

Não quero voltar ao leite derramado. Quem me segue no blog sabe das dificuldades que enfrentei e continuo enfrentando, no último ano. Por isso mesmo tenho de admitir que, a despeito da couraça de que me revesti para fazer frente a tanta coisa ruim, continuo a ser o manteiga derretida de sempre. Algumas gentilezas me desarmam e expõem, para mim mesmo, toda a minha fragilidade. Hoje, por exemplo, graças a uma deferência especial da distribuidora Sílvia Cruz, da Vitrine, da assessora Anna Luiza Müller e de Kleber Mendonça Filho, pude assistir a Bacurau quase junto com a plateia de jornalistas na Côte d’Azur. A crítica estará no C2 de amanhã, mas quero antecipar que gostei muito do western futurista ideológico de Kleber (e Juliano Dornelles), que resume o Brasil numa cidadezinha do sertão que, de repente, some do mapa e os habitantes precisam enfrentar a politicalha que recorreu a mercenários gringos para promover o fim dos tempos. Qualquer semelhança com o Brasil de Jair Bolsonaro, rastejando perante Trump ou Bush Jr., não é mera coincidência e já imagino toda aquela canalha que se mobilizou para alijar Aquarius do Oscar em 2016 agitando-se de novo. Leiam-me amanhã no C2, mas permitam-me dizer que o filme tem uma pegada de O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro, e se isso significa alguma coisa – gostaria que significasse – há exatamente 50 anos, em 1969, Glauber Rocha recebeu o prêmio de mise-en-scène, direção, justamente por Antônio das Mortes, que foi o título internacional de Dragão. Imagino que uma possível vitória em Cannes altere o cronograma, mas Bacurau está apontado para o segundo semestre, depois do Gabriel Mascaro, Divino Amor. Em menos de cinco meses, esse governo tem feito o que pode para achincalhar a cultura, e o cinema, transformado, pela voltagem crítica, em inimigo público número 1. Como dizia Zagalo – ‘Vocês vão ter de me engolir’ -, esse povo entreguista vai comer muito sapo daqui pra frente. Grandes filmes, e todos ‘contra’. Bacurau, A Rosa Azul de Novalis, Marighella, Divino Amor. O Brasil talvez ainda nem se tenha dado conta, mas sobrevive, e resiste, através do cinema. A propósito, Divino Amor ganhou nesta terça, 14, seu teaser oficial. É bem forte, e polêmico, como o filme, incluindo cenas inéditas e reações ao desastroso início do governo do coiso. ‘Mascaro está segurando um espelho que expõe o presente político assustador do seu país”, diz um trecho da crítica em Variety, a Bíblia do showbiz nos EUA. E o próprio Mascaro crava, em nota para a imprensa – ‘Fabular um futuro próximo – seu filme passa-se em 2027, o de Kleber também se passa ‘daqui a alguns anos’ -, é uma ferramenta fundamental para se entender as contradições do presente.’

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