As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Bacurau, o show. A ciranda de Lia e o bicho da noite de Sérgio Ricardo

Luiz Carlos Merten

12 de janeiro de 2020 | 22h36

No sábado fui almoçar com amigos – Emília Silveira, Orlando Margarido, Marcos Fernando e a mulher – num restaurante que recomendo. Quando cheguei em São Paulo, há 30 anos, a Mooca era alvo de xoxo…, perdão, chacota. Seria a São Paulo brega, tradicionalista até o reacionário. Era o que me diziam. Se era verdade, mudou. Do Centro até lá foi um tour de táxi, por ruas arborizadas, cheias de condomínios novos. O Borgo Brace fica na Praça Visconde de Souza Fontes, no Parque da Mooca, e a própria praça me pareceu encantadora. O lugar é novo e as especialidades são as carnes, de corte uruguaio, na grelha. Tem até pastel na grelha, uma delícia. Foi uma tarde agradabilíssima e, à noite, como todo mundo tinha compromisso, o grupo dispersou-se. Orlando e eu fomos ao show do Bacurau, no Sesc Pinheiros. Conseguimos lugares no balcão, muito apertado. A perna começou a me incomodar. Levantei-me e terminei assistindo de pé, na escada, meio vertical. Mas valeu a pena. Inspirado no filme, Bacurau, o show, viaja pelo Nordeste universal, sua cultura, sua musicalidade, por meio de artistas como Ava Rocha (Te Entrega, Corisco!), Karina Buhr (Objeto não Identificado), o violeiro Carranca (Rodger Rogério), o DJ Urso (Jr. Black), Lirinha, Fernando Catatau e um grande etc que inclui Régis Damasceno, que, além da guitarra e da viola, assina a direção (com Duda Vieira). Não, não estou esquecendo. Rainha da noite, Lia de Itamaracá entrou para o gran finale, emendando cirandas que levantaram o público e me fizeram, desajeitadamente, confesso, por causa da perna, dançar (e na escada, ainda por cima!).
Essa manhã de dor, essa alegria
Essa manhã desesperada e branda
Essa ciranda quem me deu foi Lia
que mora na ilha
de Itamaracá.
Que força tem aquela mulher. Que força tem o filme, capaz de inspirar um show musical que foi, acima de tudo, um canto de liberdade. Já disse aqui no blog e repito. Existem duas pragas no Brasil – o antipetismo e o antikleberismo. Identificam-se, e a rejeição a Kleber Mendonça Filho, duas vezes preterido na indicação para o Oscar, começou quando a equipe de Aquarius fez aquela manifestação contra o golpe do impeachment, no tapete vermelho de Cannes. Fiz listas de três filmes, de cinco, participei da escolha do colegiado de cinema da APCA. Deu sempre Bacurau na cabeça. De volta a Sérgio Ricardo, Bicho da Noite.
São muitas horas da noite
São horas do bacurau
Tenho de admitir que o show me fez um bem danado. Dançar me fez sentir solto e feliz como há muito não ocorria.

Tendências: