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Baby did a bad thing, ou com Kubrick, no drive-in

Luiz Carlos Merten

05 de julho de 2020 | 22h50

Nunca é tarde para (re)começar. Aos 74 anos, estou pensando em outra coisa, mas para os anais do blog fica o meu experimento desta semana. Fui pela primeira vez – na vida! -a um drive-in. O do belas Arters, no Memorial da América Latina. Fui com Orlando Margarido, que me forneceu o carro, e a companhia. Orlando levou uma garrafa de vinho, mas eu tinha a cintilografia no dia seguinte – como preparativo da cirurgia que se aproxima – e não pude beber. Vimos De Olhos Bem Fechados, o último Stanley Kubrick, de 1999, que o próprio diretor, citado por Rodney Hill, em seu texto sobre o filme no The SK Archives, da Taschen, na Bibliotheca Universalis, considerava seu melhor filme, Quando disse isso ele certamente não devia estar pensando que seria o derradeiro (e que morreria poucos fias depois da sessão especial para Tom Cruise, Nicole Kidman e os executivos da Warner). Lembro-me da polêmica no lançamento. Muita gente não gostou, mas pior que isso – teve gente que achou que o filme ainda não estaria acabado. Achavam que o próprio Kubrick ainda gostaria de fazer melhoramentos, mas essa foi a versão final que ele aprovou. Achei a experiência muito interessante, o tal drive-in. Mas gostei mais ainda por ter revisto o filme, a que não assistia desde o lançamento. Me lembrava das cenas emblemáticas – Alice contando ao marido da sua atração pelo marinheiro, o Dr. William (‘Bill’) Hardford mascarado na orgia, o necrotério. Me lembro de haver escrito alguma coisa sobre coito interrompido, na época. Alice não trai o marido, Bill não trai a mulher. Mas as coisas sonhadas e não realizadas interferem na realidade, quase implodem o casamento. No final, Cruise/Dr. Hardford ainda segue com a grande fantasia – a relação para sempre. Ela relativiza. Diz o que eles precisam urgentemente fazer – to fuck. (Em tempos de isolamento social, é o meu desejo, o desejo de quanta gente?) Não me lembrava, e me impressionou muito o roteiro de Frederic Raphael, que escreveu filmes fundamentais dos anos 1960, incluindo Um Caminho para Dois/Two for the Road, de Stanley Donen, que já era sobre um casal, Audrey Hepburn e Albert Finney. Liguei para meu amigo George Moura, grande escritor de TV e cinema, para lhe dizer que tinha, necessariamente, de (re)ver o filme. George me disse que já usou aquele Kubrick numa palestra, ou seminário, sobre roteiro. É uma adaptação de Arthur Schnitzler (Traumnovelle) e, mesmo sabendo da admiração de Kubrick por Max Ophuls, que já havia adaptado o escritor, confesso que me surpreendi ao saber que esse era o filme que ele chegou a anunciar em 1971, tão logo terminou a rodagem de A Laranja Mecânica (e quando ainda trabalhava na montagem do filme baseado em Anthony Burgess). Rodney Hill conta que o diretor usou o roteiro sem segui-lo, necessariamente, ao pé da letra. Improvisava com o elenco. Era obcecado por detalhes, fazia os atores repetirem as cenas muitas e muitas vezes. Desde o início, Kubrick havia anunciado que queria filmar com um casal de verdade. Cruise e Nicole, considerando-se que ele já era uma major star, assinaram o mais raro dos contratos, pelo qual tinham de ficar à disposição do diretor pelo tempo que ele quisesse, e foi longo, coisa de um ano e meio, pelo menos. Outros não aguentaram. Harvey Keitel foi substituído por Sydney Pollack, que já dirigira Tom Cruise em A Firma. Jennifer Jason Leigh fazia a filha do paciente morto, que se declara para Bill. Quando Kubrick, na fase de montagem, resolveu refilmar parte da cena e ela estava comprometida em outro projeto, ele simplesmente a defenestrou do elenco, recomeçando com outra atriz no papel. Revi De Olhos Bem Fechados com olhos novos e, mesmo não estando certo de que seja o melhor Kubrick, em todo caso me pareceu dos grandes – e maior do que pensava. Achei-o perturbador e ontem, escrevendo sobre o Jean-Luc Godard para os Clássicos do dia – O Desprezo – vi, não na forma, pontos de contato. A anatomia de um casamento. O de Godard implode na tela, e implodiu fora também. Pensei comigo como deve ser para Cruise e Nicole reverem esse filme, as promessas que se fazem. E a trilha! Quando ‘Bill’ entra na orgia a música ritual é a que acompanha os versos sagrados do Baghwad Gita, invocando o Darma, a consciência. Os versos tiveram de ser suprimidos porque, no contexto, foram considerados ofensivos por importantes hinduístas, embora eu não esteja seguro de que a ladainha, que é incompreensível aos ouvidos, não tenha voltado. A trilha de Jocelyn Pook integra Gyorgy Ligeti, Dmitri Shostakovich e Chris Isaac, Baby Did a Bad Thing. Confesso que fiquei louco pelo filme. Não paro de pensar.

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