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Baaria, a porta do vento

Luiz Carlos Merten

08 de abril de 2020 | 22h21

Fui agora à sacada do apartamento para tentar ver a Super Lua, mas o céu encoberto não permitiu. A sacada! Há dois anos, vivi um momento singular de minha vida nesse espaço. Como dizia José de Alencar, é a frase final de Iracema – Tudo passa sobre a Terra. Há quase dois dias não postava. O material diário para o jornal, impresso e online, a série Clássicos do Dia têm me ocupado. Estou me divertindo muito nessas viagens pela memória de filmes que foram importantes na minha formação. Termino um desses textos e já quero engatar no outro. Tenho encontrado, via telefone, amigos queridos – Leila Reis. Conversei hoje longamente com George Moura e Anna Luiza Müller. Nesse transe todo, a Anna perdeu o pai no fim de semana, um homem que foi guerreiro em defesa de conquistas sociais e políticas, tendo contribuído, como advogado, em questões essenciais na Constituinte. E embora ele tenha morrido de um tipo particular de leucemia, o óbito, ocorrido no quadro da pandemia, levou às mesmas restrições quanto a velório e enterro, aplicadas às vítimas do Coronavirus. Um homem que teria direito à despedida de muitos amigos, com abraços e beijos de apoio, partiu de forma quase clandestina. A Anna me enviou os textos escritos pelo George (e por Ingo Ostrovsky) e pela irmã dela, Carolina. Embora não tenha conhecido Paulo Henrique da Matta Machado – era o nome dele -, achei os textos profundamente emocionantes, até chorei. Aliás, é o que mais tenho feito. Pode ser piegas, fo…-se. Pergunto-me se não conseguirei sobreviver ao vírus para morrer de desidratação. São tantas manifestações de carinho e solidariedade que eu vejo a toda hora, no Brasil e no mundo. E algo está-se passando nesse País. A turma do ódio deve estar-se descabelando. Agora mesmo, durante a fala do presidente, Pinheiros virou uma loucura. Antes era só ‘Fora!’, agora a gritaria vem com todo tipo de adjetivo desabonador. O bicho está pegando. Ainda sobre meu post anterior, o do Chefão III. Guilherme Sobota quase me fez morrer de rir. Arranjou uma foto do Al Pacino desconsolado, com a frase – ‘Achei que já estava livre, mas me agarraram de novo!’ Por mais que goste do filme, não perdi meu senso de humor, mesmo com uma piada contra uma obra que defendo com tanto empenho. Aliás, já devo ter contado no blog, mas vale repetir. Nos anos 1960, havia o Oscar da crítica, um prêmio à melhor crítica, atribuído por alguma Associação Nacional. Judith Christ foi indicada, e venceu, por uma crítica demolidora sobre Hurry Sundown/O Incerto Amanhã, e o que fez o diretor e produtor Otto Preminger? Enviou-lhe dúzioas de rosas, com o cartão ‘Parabéns por essa noite de triunfo profissional’. Divago, sei. Quando escrevi que Bagheria, a cidade da Sicília em que se passa o terceiro ato, quer dizer em árabe ‘porta do vento’, lembrei-me do filme de Giuseppe Tornatore, Baaria, com Margareth Badè e Raoul Bova, de 2009. Liguei para Orlando Margarido, que fez, anos atrás, um tour de carro pela Sicília e confirmou que Bagheria tem as ruínas de um templo que remonta à época do Império Romano. Me deu vontade de rever Baaria – A Porta do Vento.

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