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Avaliação tardia

Luiz Carlos Merten

15 de outubro de 2013 | 15h56

Encontrei Maria do Rosário Caetano na cabine de São Silvestre e ela me cobrou por não haver feito uma matéria de encerramento da Première Brasil. Achei que havia algum mal-entendido, porque enviei o texto (de Londres), mas houve uma redução na edição de sábado e a matéria virou breve. Aqui fica resgatada, para o caso de alguém se interessar.

E não houve jeito – o júri do 15.º Festival do Rio, presidido por Fabiano Canosa e integrado por Lázaro Ramos e Helena Ignez, correspondeu à expectativa e Leandra Leal bisou o Redentor de melhor atriz, que já havia recebido no ano passado por Éden, de Buno Safadi. Poderosa – Leandra foi melhor atriz em Gramado pelo mesmo papel, mem agosto. Agora, o prêmio de melhor atriz da Première Brasil veio por Lobo Atrás da Porta, de Fernando Coimbra. O longa vencedor do prêmio Horizontes Latinos no Festival de San Sebastián dividiu o Redentor de melhor filme com De Menor, de Caru Alves de Souza, mas nem Coimbra nem a talentosa filha de Tata Amaral e Francisco César Filho receberam o premio de direção. Ele foi para a dupla Cao Guimaraães e Marcelo Gomes, de O Homem das Multidões.

O júri também fez justiça ao atribuir os prêmios de ator e coadjuvantes. Martha Nowill poderia ter sido até melhor atriz, já que, a rigor, não existe uma protagonista em Entre Nós, de Paulo e Pedro Morelli. Sua cena com Paulo Vilhena, quando ambos expõem suas carências, vai ficar como uma das melhores da Première Brasil de 2013. Paulo Vilhena poderia ter sido o melhor coadjuvante, mas o júri do Rio corrigiu a injustiça do de Gramado e os Redentores de ator e coadjuvante foram para os excepcionais Jesuíta Barbosa e Rodrigo Garcia por Tatuagem, de Hilton Lacerda.

Em seu discurso de agradecimento, a melhor atriz disse que estava se sentindo privilegiada. Leandra, afinal, tinha quatro – quatro! – filmes na programação. Disse que Coimbra era o diretor `mais sensível`, mas nisso há controvérsia. O filme dele, inspirado no lendário caso da `fera da Penha`, sobre a mulher que assassinou os filhos do amante para se vingar, é forte e propõe uma interessante narrativa em flash-backs que vão se abrindo em diferentes direções. Tudo isso, a violência, o erotismo, a invenção dentro de uma narrativa tradicional, joga a favor de Coimbra, mas Caru Alves de Souza não é menos sensível e é ainda mais incisiva em De Menor, da mesma forma que Cao e Marcelo Gomes levaram a poesia ao limite em O Homem das Multidões, e isso só se faz com muita sensibilidade.

O júri dividiu-se em relação a duas correntes – um cinema autoral, investigativo da linguagem (O Homem das Multidões), e outro mais narrativo e preocupado com a `história`, embora os filmes de Coimbra e Caru não sigam a cartilha do academicismo, que fique claro, nem mesmo do começo, meio e fim, que subvertem, cada um à sua maneira. Leandra, é bom voltar a ela, aproveitou os holofotes para se posicionar em relação à greve dos professores e pediu uma salva de palmas  ‘aos que estão na rua lutando por uma educação de qualidade’. O vencedor do prêmio do público foi Tatuagem e Hilton Lacerda disse que, para ele, foi uma provocação dialogar com a massa sem abrir mão de suas convicções. ‘Foi uma experiência muito visceral’, arrematou.

O júri deu prêmios de roteiro (para Entre Nós) e fotografia. Neste quesito, entre muitos concorrentes possíveis (Lula Carvalho, Ivo Lopes e Gustavo Hadba), escolheu o Pedro Urano de Quase Samba. Foram escolhas corretas, mas, ao lotear os prêmios com o cuidado de não privilegiar nenhum filme, o júri excusou-se do risco de bancar uma premiação mais visceral. Sua escolha mais discutível foi o Redentor de documentário para Historias de Arcanjo, de Bruno Quintela e Guiilherme Araújo, sobre Tim Lopes, pois o melhor da categoria foi um híbrido (de documentário e ficção), o admirável A Gente. O filme de Aly Muritiba é tão bom que, na avaliação do repórter, seria o único a poder arrebatar o prêmio maior a De Menor, e o longa de Caru Alves de Souza, no quadro da premiação, tal como ocorreu, já tinha qualidades superiores para levar o Redentor sozinho. Vários, senão todos esses filmes estarão na Mostra, a partir da semana que vem. O evento de São Paulo não repete mais a programação internacional do Rio, mas, no caso do cinema brasileiro, os vencedores da Première Brasil e dos festivais de Brasília e Gramado são muito bem-vindos, pelo simples fato de que podem concorrer ao Prêmio Itamaraty, e o dinheiro – o premio tem dotação – faz uma diferença enorme no lançamento.

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