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Audrey, 85

Luiz Carlos Merten

04 de maio de 2014 | 17h30

Estou na redação do Estado, onde vim fazer minhas matérias – no plural – para a edição de amanhã do Caderno 2. Cá está Camila Molina, que me observou como a morte de João (Carlos) Sampaio repercutiu nas redes sociais. João era muito querido, não tenho dúvidas. No Cine PE, sua morte inesperada provocou consternação. Exageraria se dissesse que éramos amigos, mas João era aquela coisa baiana – calorosa, fraterna – e me lembro de ter rido muito com ele em nossos contatos ocasionais. Vai em paz, colega. Gostaria de um dia ser lembrado com tanto amor. Completam-se hoje, 4 de maio de 2014, 85 anos do nascimento de Audrey Hepburn. Há cinco anos, ela foi eleita a mais bela atriz de todos os tempos. Morrera 16 anos antes, aos 63, e sua lembrança permanecia viva. Está havendo um revival de outro ícone feminino dos anos 1950 – Grace Kelly. Deve culminar em Cannes, na semana que vem, quando o longa de Olivier Dahan fizer a abertura do Festival de Cannes, na semana que vem. Nicole Kidman é quem faz o papel e o filme está numa disputa que envolve os produtores, os irmãos Weinstein. Eles não gostariam do resultado e querem remontar o filme, o que a lei francesa, que protege o direito de autor, impede. Grace, até por haver se casado com um príncipe de verdade – Rainier, de Mônaco -, esculpiu o mito duradouro de uma princesa da tela. Era elegante, a representação perfeita da loira fria de seu mestre Alfred Hitchcock, com quem fez três filmes.  Hitchcock amava mulheres que, sob uma aparência de gelo, escondiam temperamentos ardentes. Grace, conta a lenda, foi um furacão que assolou Hollywood. Ela ficou – teria ficao, para se usar um jargão atual – com todos os galãs com quem contracenou. A morena Audrey Hepburn não ficava atrás. Filha de um banqueiro inglês e de uma baronesa holandesa – descendente de reis franceses e ingleses -, seu primeiro sucesso foi na pele de uma princesa, em A Princesa e o Plebeu, de William Wyler. De cara ganhou o Oscar, em 1953. Apesar da origem, a infância e a juventude foram difíceis, sob a guerra. Desde cedo, a vocação humanista que a levou, mais tarde, a se tornar embaixadora das Nações Unidas, fez com que se ligasse à resistência contra o nazismo. Há uma história famosa de que teria feito balé para poder se deslocar à vontade e levar informações escondidas nas sapatilhas. Quando a guerra acabou, tentou prosseguir na dança, mas desistiu ao encontrar uma professora que dizia que, além de alta demais, ela não tinha talento. Audrey virou corista, foi fotógrafa. Fez pequenos papeis que não chamaram atenção, mas a própria Colette impressionou-se com ela e Audrey foi contratada para fazer Gigi no teatro (antes de A Princesa e o Plebeu). Três dias depois do Oscar, recebeu o Tony, o Oscar do teatro, por sua atuação em Ondine, que teria feito por sugestão de Mel Ferrer, com quem se casou. Seu estilista pessoal era Givenchy e ela virou uma referência em elegância. Até hoje é cultivada como tal. Filmes como Sabrina, de Billy Wilder, Cinderela em Paris, de Stanley Donen, e Bonequinha de Luxo, de Blake Edwards, somente confirmaram essa elegância, que não era só de roupas. Fez muitos filmes com diretores importantes – Guerra e Paz, de King Vidor; Amor na Tarde, outro de Wilder; O Passado não Perdoa, de John Huston; A Um Passo da Eternidade, de Fred Zinnemann; Quando Paris Alucina, de Richard Quine; Charada, de novo com Donen; My Fair Lady, de George Cukor; e Um Caminho para Dois, mais uma vez com Donen. Sempre circularam rumores de que, como Grace Kelly, era uma devoradora de homens. Podia até ser, mas nunca perdeu a classe. Audrey pertence a uma geração de celebridades retas, que nunca se envolveram em escândalos. Separou-se de Mel Ferrer, que a dirigiu em A Flor Que não Morreu – a maior, única?, qualidade do filme era a trilha de VIlla-Lobos -, casou-se com um psiquiatra italiano, o dr. Andrea Dotti. Teve dois filhos, um de cada casamento. Sean e Luca. Uma terceira união, não legalizada, durou até sua morte, em 1993, com Robert Wolders. Em 1976, protagonizou – com Sean Connery – seu último grande filme, Robin e Marian, de Richard Lester, versão crepuscular do mito de Robin Hood. Nos anos 1980, foi, em tempo integral, defensora da infância, na Unicef. Em 1989, fez o último papel, uma homenagem de Steven Spielberg, num filme bonito. Em Além da Eternidade, é o anjo que vem apaziguar Richard Dreyfuss, fazendo com que ele aceite sua morte e permita a Holly Hunter seguir em frente com sua vida. Pegando carona que hoje é dia da Parada do Orgulho Gay em São Paulo, pode-se acrescentar que Audrey Hepburn, por sua elegância, feminilidade e sofisticação, virou ícone do público GLBT. Nem por isso deixou de ser reverenciada pelas outras tribos, todas as tribos. Inspirou livros e personagens. O American Film Institute a coloca num nicho especial. Com Greta Garbo e Marilyn Monroe, Audrey integra o trio das maiores lendas femininas do cinema. Sendo ela quem foi, algumas imagens para evocar neste 4 de maio. Imagens que vão na contracorrente do ícone, celebrando a mulher. Audrey, sem maquiagem alguma, cantando Moon River e toda molhada, sob a chuva, chamando pelo gato (Cat! Cat!) em Bonequinha de Luxo. Audrey madura, envolta no hábito em que a encontra o ex-marido, ao voltar da guerra, em Robin e Marian. ‘Moon river/wilder than a mile/I’m crossing you in style/some day…’ Audrey é daquelas de que se pode dizer que não morreu. Encantou.

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