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Au revoir Cahiers, agora é… Cineaste!

Luiz Carlos Merten

04 de novembro de 2017 | 16h03

Havia comprado e até citei o número mais recente de Cineaste, com a Lady Macbeth na capa. Mas citei, en passant, só como contraponto a uma afirmação de Inácio Araújo no Guia da Mostra que a Folha distribuía durante o evento. Estava dando uma olhada e encontrei o texto do Inácio. Parei quando ele, sobre Gabriel e a Montanha, citou a repercussão do filme de Fellipe Barbosa em Cahiers du Cinéma e disse que era a revista de cinema mais importante do mundo. Mas não é mesmo! Cahiers foi decisiva na legitimação da nouvelle vague e, antes disso, no resgate de um cinema B hollywoodiano que a crítica dos anos 1950 e 60 desprezava por sua vinculação aos gêneros, entre outras coisas. Mas a revista teve muitas fases, variando o foco e as ferramentas de investigação sobre o cinema conforme mudavam os redatores-chefes. Hoje em dia, sobrevive do nome. Acho muito mais importante acompanhar Cineaste, America’s leading magazine on the art and politics of the cinema. O tal número comemora os 50 anos da revista e abre-se com um texto sobre o impacto social e o legado de No Calor da Noite/In the Heat of the Night, o longa de Norman Jewison que ganhou o Oscar de melhor filme, mas não o de melhor direção de 1967. Esse último foi para o Mike Nichols de A Primeira Noite de Um Homem/The Graduate, outro filme essencial daquele ano, que ainda tinha, entre os indicados, Bonnie & Clyde – Uma Rajada de Balças, de Arthur Pen, o melhor de todos, mas era radical demais para a Academia. Cineaste analisa o que significava, à luz do movimento por direitos civis, um filme como o de Jewison. Conclui que, 50 anos depois – vejam-se os Oscars do ano passado e o desse -, os direitos continuam não sendo iguais. Há outro artigo muito interessante – Sex, Violence and Adult Themes – sobre a MPAA e o nascimento do sistema de rating (as faixas de censura) no cinema norte-americano. O texto lembra histórias muito interessantes. O Code negou um visto a O Homem do Prego, de Sidney Lumet, mas voltou atrás depois que o filme arrebatou a crítica; a Metro lançou Blow Up – Depois Daquele Beijo, de Michelangelo Antonioni, sem o selo do Code para evitar que fosse catalogado como ‘X’; e O Incerto Amanhã, de Otto Preminger, sofreu restrições – ‘suggested for mature audiences’ – só por causa da cena do saxofone, em que Jane Fonda simula um boquete em Michael Caine. As análises de filmes em DVD são preciosas – Blow Up, Três Irmãos (a obra-prima de Francesco Rosi) e La Mort en Ce Jardin (de Luis Buñuel), bem como as de lançamentos de livros, em especial Opening Wednesday at a Theater o Drive-In Near You, sobre os filmes e autores negligenciados dos anos 1970, considerada a terceira (e última) década de ouro de Hollywood. Filmes como A Vingança de Ulzana, de Robert Aldrich, A Marca da Brutalidade/Prime Cut, de Michael Ritchie, Tragam-me a Cabeça de Alfredo Gasrcia, de Sam Peckinpah, etc. Na época, em Porto Alegre, eu já estava me batendo por todos eles. Mais um livro sobre Casablanca. O que ainda faltava dizer sobre o clássico romântico de Michael Curtiz? We’ll Always Have Casablanca, de Noah Isenberg, destaca o impacto do discurso antinazista do filme sobre o público (emn plena guerra!) e documenta as negociações da empresa produtora Warner com a Production Code Administration para garantir que o filme fosse feito e lançado, porque a PCA não aceitava o affair de Rick e Ilsa em Paris, depois que ela já estava casada com Victor. Mas o ‘must’ da edição é Anatomy of the ‘Prick Flick’. Com base numa conceituação da ícone feminista Gloria Steinem, J.E. Smyth coloca em xeque o cinema machista, especialmente westerns e filmes de guerra, escrito por mulheres. É uma coisa tão avançada, e provocativa, que me dá pena de nossas feministas de plantão com suas perguntas desse tamanhinho, ó, em debates de festivais. Compro Cineaste na banca do Conjunto Nacional. É cara, mas vale a pena. Atualmente, é só o que consigo ler sobre cinema.

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