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Atrizes!

Luiz Carlos Merten

30 de maio de 2014 | 10h42

FLORENÇA – A gente se arrepende do que não faz. Em Paris, havia arrastado meu amigo Dib Carneiro para ver vários filmes, todos clássicos, naqueles cinemas de arte-ensaio do Quartier Latin, que me apaixonam. Mesmo assim, descobri que perdi um programa que teria amado rever. O Action Christine, no Odeon, é um dos meus cinemas preferidos em Paris. Exibia um ciclo chamado Mémoire du Cinéma Américain, Memória do Cinema Americano – As Atrizes, Les Actrices. O Médico e o Monstro, a versão de Victor Fleming, com Ingrid Bergman; Meu Pecado Foi Nascer, de John M. Stahl, Gene Tierney; O Pirata, de Vincente Minnelli, Judy Garland; Deus Sabe Quanto Amei, Minnelli, de novo, Shirley MacLaine; Shanghai Express, de Josef Von Sternberg, Marlene Dietrich; Mogambo, de John Ford, Ava Gardner (e Grace Kelly); Meias de Seda, de Rouben Mamoulián., Cyd Charisse etc. No etc está o filme que adoraria ter revisto. Em 1962, Richard Brooks realizou sua segunda adaptação de Tennessee Williams,. Doce Pássar0 da Juventude – após Gata em Teto de Zinco Quente, de 1958. As duas eram interpretadas por Paul Newman e, após Rick se envolver com Magggie the Cat (Elizabeth Taylor), Chance (Newmam) volta à pequena cidade do Sul em que nasceu. Ele é gigolô, mas o filme, naturalmente, não deixa isso claro. O mundo já estava mudando, os comportamentos sofriam verdadeiro cataclisma, mas em Hollywood as coisas ainda eram um pouco lentas. Chance acompanha Alexandra Del Lago, uma estrela decadente que afundou na droga e no álcool, a partir do fracasso, ou do que ela pensa que foi o fracasso de sua última peça. Alexandra é a maior personagem de Geraldine Page e talvez seja difícil de aceitar hoje em dia, em plena era da net, que Alexandra funde sua vida – a eterna fuga – sobre um equívoco que só se esclarece no final. Mas Alexandra, afinal, não é a protagonista. Brooks interessa-se mais por Chance/Newman. O filho pródigo foi expulso da cidade por ser um pobretão que ousou desejar a filha do poderoso local, e agora Shirley Knight está para se casar com o médico que atende Alexandra. O que Chance fez de sua vida foi seguir uma trajetória errática, decaindo cada vez mais. O nome não é casual – Chance conseguirá dar a volta por cima? Alexandra? Brooks fez grandes filmes sobre a segunda chance, um dos temas – por excelência, com o retorno à casa – do cinema de Hollywood. Ele havia iniciado os anos 1960 com Entre Deus e o Pecado/Elmer Gentry, que adaptou de Sinclair Lewis, e emendou Doce Pássaro com Lord Jim, Os Profissionais e A Sangue Frio. Tenho de concordar que Brooks edulcorou Tennessee Williams – o homossexualismo de Rick em Gata, a prostituição de Chance em Doce Pássaro -, mas são filmes tão bonitos. O jovem Newman é um deus. Há anos persigo  Doce Pássaro, mas não gostaria de rever o filme em DVD. Ele esteve ao meu alcance, e perdi minha chance. Só descobri depois. Quem viveu em Porto Alegre nos anos 1960 com certeza se lembra do Vogue, um cinema que ficava na Av. Independência e que depois virou o Cinema Um. Foi lá que vi O Doce Pássaro da Juventude num domingo às tarde, sessão das 4 (16 horas). Sou capaz de lembrar que era um dia de inverno, cinzento. Certas lembranças são muito fortes, e eu nem preciso de madeleines. Adoraria ter revisto Doce Pássaro da Juventude, mas talvez seja melhor assim. Refazendo o filme no meu imaginário, não corro o risco de me decepcionar, embora com Richard Brooks isso nunca tenha ocorrido. Algumas de minhas grandes emoções cinematográficas eu devo ao ex-marido de Jean Simmons.

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