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Atlantique, para iniciar gloriosamente o ano

Luiz Carlos Merten

03 de janeiro de 2020 | 09h34

Não fui a Cannes no ano passado, vocês sabem. Tive de cancelar minha viagem na última hora para a reposição de prótese. Estava no hospital, mas, já no mês seguinte, quando começaram a surgir nas bancas as publicações especializadas internacionais – de língua inglesa -, imediatamente fiquei seduzido pelas imagens do filme do Senegal, Atlantique, de Mati Diop. Film Comment colocou-o entre os essentials do festival. Os filmes foram chegando – Bacurau, Dor e Glória, Parasita, Retrato de Uma Mulher em Chamas, Os Miseráveis. Nada de Atlantique. Finalmente nesta semana, uma parceria do CineSesc com a Netflix abriu a janela para a apresentação, na sala da Augusta, de três filmes produzidos pela operadora do streaming. Dois já haviam estreado nos cinemas – O Irlandês e Dois Papas. O terceiro é justamente o de Mati. Fui ver ontem logo na primeira sessão, às 17h30. Tomei um choque. Antes, algumas considerações. Por que a Netflix não lançou nos cinemas, no Brasil, o Noah Baumbach, impedindo que História de Um Casamento entrasse nas listas de melhores do cinema, como concorre no Globo de Ouro, e aliás é recordista de indicações? Alguns de vocês vão querer me matar, mas ontem, sentado na plateia do CineSesc, emocionei-me, como sempre, com as imagens de Dois Papas – o melhor Fernando Meirelles? A trilha, Mercedes Sosa. Quando tienga la tierra… E logo o Martin Scorsese. Ele reclamou da Marvel, disse que aquilo não é cinema. Há controvérsia. Olhando o trailer, pensei comigo. O Irlandês é um filme de gênero, mas não de gângsteres. Um filme de monstros – a velhice no poder, segundo Marty. Entrevistei o fotógrafo Rodrigo Sierra – ainda não consegui publicar – e ele me contou da técnica. Os planos-sequência mas, principalmente, as múltiplas câmeras para criar imagens de 360 graus, sobre as quais foram aplicados os efeitos de digitalização para o envelhecimento do elenco. O velho Pesci, o velho De Niro. A brutalidade pura, a falta de afeto. O horror, o horror. Scorsese e seu roteirista, Steve Zaillian, esclarecem a morte de Hoffa, que ficava subentendida na versão de Danny DeVito, com Jack Nicholson, de 1992. Máfia e política, violência e poder. Interessante, mas 3h30? Socorro! Atlantique me levou numa viagem. De cara, a garota e o trabalhador da constreução são separados pelo trem. Olham-se, sorriem-se. Amam-se. Logo ele será uma presença fantasmagórica. Com outros homens da comunidade, cansados de não receber salário do capitalista que constrói a Dacar do futuro, ele parte para a Europa. Barca mba barzakh. Barcelona ou a morte. Ela fica para trás, para um casamento arranjado com um homem que não ama. A cama da união pega fogo. A polícia vem investigar. Suleiman, o amado, provocou o incêndio? Mas, como?, se ele está morto, no fundo do mar? Ou não? O mar, suntuosamente fotografado por Claire Mathon, a fotógrafa de O Estranho do Lago, de Alain Guiraudie, e Retrato de Uma Mulher em Chamas, é personagem fundamental. Outra história de fantasmas, aqui de mortos-vivos, como em Episódio IX. O mar profundo, a perder de vista, substitui o mar revolto de A Ascensão Skywalker, e a história de amor é intensa e apaixonante. Os mortos, falando através de suas mulheres, recuperam o salário, Suleiman, valendo-se de um cavalo, como no candomblé, faz sexo com Ada e ela vira mulher, pronta para a vida. Mati Diop assina seu primeiro longa. Fez curtas de prestígio, foi atriz de Claire Denis, o tio, Djibril Diop Mambety, é uma figura histórica do cinema senegalês e o pai, Wasis Diop, é jazzista respeitado. Uma família de artistas. De alguma forma, lá do fundo da memória, vieram imagens de Barravento. Atlantique é o que aquele Glauber poderia e até deveria ter sido, não fora o materialismo histórico do Cinema Novo, cujos integrantes defendiam o sincretismo, sem acreditar nos orixás. Fiquei fissurado pelo mistério de Atlantique.