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Até sempre, Abbas!

Luiz Carlos Merten

04 Julho 2016 | 23h38

Em abril, quando houve a retrospectiva de Abbas Kiarostami no CCBB, tentei falar com ele. fui informado de que estava muito doente, internado em Paris. Câncer gastrointestinal. Comecei a seguir seu estado de saúde pela rede. Kiarostami voltou para o Irã, a família criou, na rede, um mecanismo para quem quisesse acompanhá-lo. Terminei me esquecendo de Abbas. Hoje, estava na redação do Estado. Havia gravado um depoimento para o documentário de Mário Abbade sobre Neville d’Almeida. Voltava para minha mesa quando (Luiz) Zanin me deu a notícia – “Morreu o Abbas!”Lembrei-me imediatamente de Leon Cakoff, que gostava de dizer que foi o primeiro a valorizar, na Mostra, o cinema iraniano e que realizou, com Renata de Almeida, o filme Volte Sempre, Abbas. Kiarostami veio algumas vezes à Mostra. Integrou o primeiro júri, acho que em 1994, criou o cartaz, recebeu o prêmio Leon Cakoff em 2012. Eras om que se chama de amigo da Mostra. Abbas nasceu em Teerã, em 1940. Foi pintor, desenhistas, ilustrador. Criou o Departamento de Cinema do célebre Instituto para o Desenvolvimento Intelectual da Criança e do Adolescente, um ambicioso projeto do Xá, ainda nos anos 1960. Em 1979, Khomeini voltou ao Irã nos braços do povo, a monarquia foi abolida e em seu lugar surgiu a república dos aiatolás. No Kanoon, o Instituto da Criança e do Adolescente, Kiarostami e Mohsen Makhmalbaf, bebendo na fonte do neorrealismo, colocaram o cinema iraniano no mapa. Mesmo depois do advento da República Islâmica, os filmes viam o mundo pelos olhos das crianças, o que era uma forma de garantir que as críticas à realidade do Irã fossem assimiladas. Onde Fica a Casa do Meu Amigo? foi meu primeiro filme de Abbas. Até hoje é um de meus favoritos, com Através das Oliveiras e O Balão Branco, que ele escreveu para Jafar Panahi. Abbas ganhou a Palma de Ouro (com Gosto de Cereja) e o prêmio da crítica em Veneza (com O Vento nos Levará). Sempre defendeu um cinema em construção, que deveria se completar no público. Ficou na linha de frente do advento das novas tecnologias. Adotou o digital e o plano sequência. Fez filmes como Dez, e Cinco. Quando a situasção no Irã se tornou crítica e a liberdade de expressão passou a ser contestada no Irã, foi fazer seus filmes no exterior. Um dos masis bel.os foi feito na Toscana, na Itália. Juliette Binoche possui uma galeria de arte. Hospeda um especialista que vem falar da cópia e do original na arte. Ela se envolve com esse homem e o espectador descobre, lá pelas tantas, que pode sere seu marido. ‘Copia’, em italiano, também é casal. A cópia fiel talvez não se resuma a uma discussão sobre arte, mas sobre casamento. Vai depender do olhar do público. Kiarostami acreditava na participação inteligente do espectador. É minha regra número 1. O cinema, os filmes, só se completam no meu, no nosso imaginário. Morreu Kiarostami – de câncer, aos 76 anos. Nunca mais teremos Abbas em São Paulo, nunca mais seus filmes. Mas teremos sempre a Casa do Amigo, as Oliveiras, o gosto da cereja, o vento que nos levará. Tive o privilégio de entrevistar Abbas Kiarostami algumas vezes – em Cannes e São Paulo. Encontrei-me com ele em Paris, em frente ao Champô, um de meus cinemas de arte/ensaio preferidos, no Quartier Latin. Foi uma das raras vezes em que ele tirou os óculos escuros e me olhou no olho. Tive a felicidade de entrevistar a Binoche, que me falou, com carinho e admiração, de seu grande diretor. Tenho sido um privilegiado, reconheço. A vida me tirou algumas coisas, mas me deu muitas. Gracias! Dizem que as pessoas nunca morrerão completamente, enquanto alguém se lembrar delas. Abbas será eterno na minha lembrança, assim como espero permanecer na lembrança daqueles que me são caros.