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Ataque ao paraíso cinco estrelas em que o hóspede é… Deus!

Luiz Carlos Merten

12 de julho de 2019 | 10h42

Fui ver ontem à noite Atentado ao Hotel Taj Mahal, no Belas Artes. A sala 1 estava quase vazia, e eu até perguntei ao garoto que recolhia os ingressos se era por causa do frio, mas a verdade é que, justamente ontem, a temperatura havia dado uma relaxada. No original, o longa do diretor Anthony Maras chama-se Hotel Mumbai. Aborda os ataques do terror em Mumbai, 2006, quando terroristas de um grupo islâmico do Paquistão atacaram alvos importantes da cidade, incluindo o hotel do título. Não pude deixar de lembrar de Utoya, 22 de Julho – Terrorismo na Noruega, de Erik Poppe, sobre os ataques de um único atirador num acampamento de adolescentes. O cara era neofascista e sua aparente falta de motivação já era uma motivação em si – ódio ao outro, barbárie, gosto pelas armas, o prazer de usá-las, de disparar, de matar. Utoya, o filme, era bem impressionante como reconstituição dramática – como docudrama -, mas não gostei muito. Lembro-me de haver lido em algum lugar, algum título, que Poppe disse que não fez o filme para perpetuar o horror, para traumatizar, mas para ajudar na cura. Alguns momentos são fortes – a garota que, sentindo a proximidade da morte, clama pela mãe (a proteção do ventre materno?), outra que procura a irmã, por quem se sente responsável, e a irmã está a salvo, sobrevive, enquanto ela morre, etc. O filme de Poppe joga muito com o acaso – que pode salvar, ou matar. Maras trabalha num registro mais claramente ficcional em Hotel Mumbai. O chef que organiza os hóspedes e funcionários e diz a frase chave – no Taj Mahal, o cliente é Deus -, é um personagem ‘real’, ou quase. Dev Patel, o funcionário, interpreta a soma de vários personagens. No princípio, por não estar calçado adequadamente, ele é dispensado, mas fica para se transformar numa representação do herói anônimo dessa narrativa coral, que segue várias tramas, várias histórias cruzadas de vida e morte. Hotel Mumbai já foi definido como disaster movie, popcorn movie. Os terroristas comunicam-se pelo celular com um chefe, um tal Touro, que os exorta a olhar ao redor e ver o que foi roubado deles (pela Índia?) e a revidar, matando em nome de Alá. O hóspede que é Deus, para uns, e o Deus que é vingador, para outros. Maras até tenta fugir ao estereótipo, e cria cenas, e personagens, para tentar explicar, ou entender, o ódio. A hóspede que incrimina Zahra, mas ela também é vítima e está preocupada com seu bebê, é a mesma que implica com o turbante de Arjun, e ele explica que não pode tirá-lo porque, para os sikhs, representa honra – mas ele tira para tentar estancar o sangue da garota que recebeu um tiro, etc. O terrorista que foi atingido, e está vulnerável, liga para o pai para saber se Touro fez o depósito, e é uma tentativa de compreensão do que pode estar ocorrendo. As milícias escolhem seus mártires em bolsões de pobreza. Não é só a glória de morrer pelo Profeta e acordar no paraíso. É também garantir um sustento para a família. O mesmo terrorista vacila quando a ‘infiel’ Zahra recita o Corão. Quem é essa mulher? Maras subverte expectativas do cinema de ação. Se tem um americano bonitão na trama, Armie Hamer, ele tem de ser o herói, mas não é. Olha o spoiler – não adianta esperar dele a reação, que não virá. Tem o russo sexista interpretado por Jason Isaacs, Vasili, mas a reação desse é frágil, desastrada, embora não deixe de ser parcialmente eficiente, quando morde a perna ferida do terrorista. No todo, Hotel Mumbai é uma celebração do herói anônimo, que ganha cara, ou caras (Dev Patel, o chef) e também uma celebração desse paraíso na Terra, o Taj Mahal, onde o hóspede vira Deus, naturalmente que pagando caro pelas cinco estrelas. A verdade é que gostei de ter visto o filme de Anthony Maras. Gostei, em termos, porque é um filme de terror, um massacre sem fim, mas levanta todas essas questões interessantes – sobre terrorismo, heroísmo, sobre choques culturais. A ignorância do ‘outro’ é flagrante quando David/Armie pede no restaurante um hambúrguer tradicional, ignorando que a vaca é sagrada na Índia, e o terrorista vomita o sanduíche veggie só porque o colega lhe disse que era de… porco.