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Assassin’s Creed, o game como ficção científica

Luiz Carlos Merten

10 Janeiro 2017 | 01h08

Não sou fã de games e nem tenho habilidade manual para jogar, mas li os oito livros escritos por Oliver Bowden na série Assassin’s Creed e gostei muito. Desde o primeiro, Renegados, contando a saga de Enzo Auditore, e depois, todos os demais, me fizeram sonhar com as grandes aventuras da minha infância e juventude. Edgar Rice Burroughs, Edgar Wallace, Emilio Salgari. Eu amava Tarzan, Sandokan. Assassin’s Creed – Renegados me fez sonhar com os grandes filmes de Riccardo Freda – As Sete Espadas do Vingador, O Magnífico Aventureiro. Na orelha dos livros descobri que Bowden era o pseudônimo de um famoso historiador, e não faço ideia até que ponto isso é verdade ou simples jogada de marketing. Os livros podem muito bem ser ser projetos coletivos, escritos a várias mãos, mas com certeza envolvem muita pesquisa, porque são riquíssimos em informações sobre a Florença do Renascimento, a Roma dos papas, o Caribe dos flibusteiros etc. E, então, na semana passada, descobri o novo volume, Assassin’s Creed – The Last Descendants , de Matthew J. Kirby, em que a narrativa deixa de ser linear, como nos oito anteriores, e aparece pela primeira vez o Animus, a máquina do tempo em que é possível rastrear o DNA dos ancestrais e um grande conglomerado vai usar em busca da Maçã do Éden. O tal Kirby, na orelha do livro, tem um currículo e tanto como autor premiado de mistério infantil e infanto-juvenil. O livro é inconclusivo, porque abre nova série. E, embora o seu formato de ficção científica seja o que alimenta o filme de Justin Kurzel – para atrair o público do game -, vi hoje na Cultura do Fashion Mall, onde fui almoçar com Dib, que há outro livro, de um outro autor, e é o do filme que vi na manhã de segunda (já estamos na terça). Não se assemelha à série de Bowden nem ao primeiro volume de Kirby, mas a essência é a mesma – o velho embate entre Templários e Assassinos pela posse da Maçã do Éden. O Credo dos ‘assassinos’ é a defesa do livre arbítrio, enquanto os Templários representam o poder político e econômico que, ao longo da história, quer comandar o processo evolutivo, eliminando toda dissidência. De cara, há uma fala de Charlotte Rampling que define o estado do mundo. As pessoas não querem liberdade, querem segurança e guias para dizer o que devem fazer. Não temos visto outra coisa nesse recrudescimento da direita, e por falar nisso Donald Trump surtou com o discurso de Meryl Streep no Globo de Ouro e investiu contra ela. Chamou-a de supervalorizada e lacaia (de Hillary Clinton). Jesus! Supervalorizada ela não é, porque Meryl caprichou na performance ao manifestar seu repúdio pela forma como Trump humilhou, ao imitá-lo, um repórter deficiente que andou dizendo coisas que ele não gostou de ler, ou ver. Também não gostou de Meryl e apelou. O horror, o horror, De volta ao filme, Michael Fassbender, condenado à morte por crime, participa de uma experiência da cientista Marion Cotillard – e o pai dela, Jeremy Irons, a acusa de ser mais cientista que templária. Viajando no Animus para descobrir seu ancestral ‘assassino’, Cal/Fassbender não apenas decifra o enigma de sua vida – o ódio pelo pai, que matou a mãe – como… Olha o spoiler. É um filme grande, não um grande filme, mas, com todas as ressalvas, mentiria se não dissesse que gostei de ver Assassin’s Creed. E Fassbender é glorioso, ou seu dublê, já que ele passa quase todo o filme ‘voando’ sobre a velha Espanha da Inquisição, e Torquemada. Kurzel, que fez Macbeth com Fassbender e Marion, poderia ter enlouquecido um pouco mais e, como Quentin Tarantino, que invocou a liberdade poética para matar Hitler num atentado em Bastardos Inglórios, deveria ter eliminado aquele desprezível Torquemada. E, ah, sim, gostei como na parte ‘de época’, os diálogos são em espanhol, com legendas em inglês. Isso pode prejudicar a bilheteria do filme nos EUA, mas, para nós – para mim? -, foi um regalo.