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Aspirantes e suas cenas viscerais que já nasceram antológicas

Luiz Carlos Merten

26 de novembro de 2019 | 12h53

Passei em casa rapidamente, depois de assistir à cabine de Aspirantes. Resolvi postar. Havia assistido ao filme de Ives Rosenfeld e até mediado o debate no Festival do Rio de 2015. Há quatro anos! O Brasil era outro, eu era outro. Ocorreram tantas coisas comigo, com o País! Vi hoje outro filme, e se já havia gostado, anteriormente, gostei ainda mais. Um aspirante a jogador, Júnior. Seu melhor amigo, a namorada grávida. A amizade vira disputa quando Bento, o amigo, consegue as oportunidades que Júnior não tem. O amor vira agressão. O medo corrói a alma, a angústia. Vira ódio que Júnior dirige contra o mundo, mas que o consome internamente. Aspirantes virou a ficção certa para o momento atual do Brasil. Ives Rosenfeld talvez não seja nenhum profeta, claro que não, mas conseguiu enxergar longe. Ou está sendo mera coincidência? Além da direção, ele coassina o roteiro com Pedro Freire, que também fez a preparação do elenco. Ariclenes Barroso e Sérgio Malheiros, Júnior e Bento, têm uma cena que começa como bate-boca, vira agressão física e termina num acidente grave. Ari tem outra cena com Júlia Bernat, sua namorada Karine e uma terceira com Karine Teles, que faz a sogra, mãe de Karine. É uma discussão das duas, da qual ele é só testemunha. São cenas que já nasceram antológicas. Têm algo da urgência do cinema de Ken Loach, e do método que permite ao grande cineasta inglês extrair aquelas interpretações viscerais de seus atores. Tudo é muito forte. Amei. Aspirantes tem pouco mais de uma hora – 70 e poucos minutos. É inconclusivo. Deixa para o espectador uma interrogação. E agora? O que vai acontecer com Júnior, com Bento, com Karine? Como 1917, Aspirantes – um filme que já havia visto – me surpreendeu, e muito.