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As ‘verdadeiras’ aventuras de Raoul Walsh

Luiz Carlos Merten

25 de agosto de 2012 | 10h49

Minha mala chegou, com os livros sobre Akira Kurosawa e Joseph L. Mankiewicz – e os blu-rays de ‘Mais Forte Que a Vingança’, Jeremiah Johnson, e ‘Gremlins’, que comprei na loja da Warner em Culver City -, mas elas foi violada e o I-Pad desapareceu. Tento agora ligar para o setor de bagagens extraviadas da American e ninguém atende. Parafraseando Arthur Penn, a frase amarga que o velho imigrante diz em ‘Amigos para Sempre’ – ele dizia ‘América’, eu digo ‘American’. Eventualmente vão atender e eu espero poder resolver o caso. Agora, quero falar de Raoul Walsh. Sempre tive um carinho especial por ele, e não apenas porque a primeira crítica que escrevi na vida, no Mural Livre da Faculdade de Arquitetura da UFRGS, foi sobre o último Walsh, ‘Um Clarim ao Longe’. Não resisti quando vi o livro de Marilyn Ann Moss, ‘The True Adventures of Hollywood’s Legendary Director’. O primeiro capítulo busca a chave para a compreensão dessa vida de aventuras – o jovem Raoul, aos 15 anos, ficou devastado com a morte da mãe. Sua infância foi, como ele dizia, um período ‘encantado’. Seu começo no cinema foi com David W. Griffith, ele filmou Pancho Villa, perdeu um olho num acidente e se tornou um dos quatro mosqueteiros caolhos de Hollywood, com John Ford, Fritz Lang e Andre De Toth. Todos usavam vendas. Sempre me impressionou que Walsh, tão dinâmico, tenha morrido em 1980, muito tempo depois – 16 anos – de haver realizado ‘Um Clarim ao Longe’. Embora os anos 1960 tenham mudado muito – tudo? – em Hollywood, nunca entendi aquela inatividade. Tomei um choque ao descobrir que Walsh ficou cego em seus últimos anos, vivendo recluso em seu rancho com a mulher, Mary, que compartilhou sua vida. ‘The adventure is larger than man’, a aventura é maior que o homem. Walsh refugiou-se no mundo da imaginação, reatando com a infância – sua mãe teria sido uma notável contadora de histórias, que incentivou no filho o desejo de se botar na estrada, de conhecer o mundo, de decifrar o ‘outro’. Li, com profunda emoção, o capítulo dedicado ao meu Walsh preferido, ‘O Intreépido General Custer’, They Died witrh Their Boots on, sobre como o filme ‘quase’ foi feito com James Cagney, e por Michael Curtiz. É sempre… Falta-me a palavra, revelador? descobrir como esses grandes filmes míticos foram feitos. Todo mundo sabe das múltiplas tentativas da Warner para escalar o elenco de ‘Casablanca’, o clássico romântico de Curtiz, até chegar à dupla Humphrey Bogart/Ingrid Bergman (na próxima semana, completasm-se 30 anos da morte dela). James Cagney, Fred MacMurray, foi um longo caminho até chegar ao bad boy Errol Flynn, em seu maior papel. Quando Joan Fontaine recusou o papel de ‘Libby’, Olivia De Havilland entrou em cena, mas ela não queria ser a segunda numa personagem rejeitada pela irmã, com quem manteve sempre uma relação de antipatia e disputa. Walsh e Flynn nasceram um para o outro, tornaram-se grandes amigos. Marilyn Ann Moss conta como Flynn chamava Walsh de ‘Uncle’, tio. Ele próprio, Flynn, era ‘Baron’, o barão. Flynn incorporou/viabilizou o herói sonhado de Walsh. Fizeram grandes filmes. Walsh não esperava terminar sua carreira com ‘Um Clarim ao Longe’. Ele chegou a trabalhar num projeto chamado ‘Monte Walsh’, mas ele só foi concretizado por William Fraker, anos depois. Resultou em ‘Um Homem Difícil de Matar’, com Lee Marvin e Jeanne Moreau. Os últimos dias de um caubói – não creio que fosse uma boa história para o aventureiro Walsh. Ele teria se saído melhor com ‘Rio Lobo’, que John Wayne terminou fazendo com Howard Hawks. Wayne teve seu primeiro papel de protagonista num western A com Walsh, em ‘The Big Trail’, e John Ford, que já estava de olho nele e tinha uma rivalidade com o colega diretor, puniu o ator, demorando quase uma década para integrá-lo a seu elenco em ‘Stagecoach’, No Tempo das Diligências, quando se iniciou a parceria que todo cinéfilo sabe. Marilyn Ann Moss dedica um capítulo inteiro, ‘His Kind of Women’, a analisar as mulheres, pré-feministas e de faca na bots, de Walsh, uma linhagem que inclui Gloria Swanson (com quem ele teve um tórrido affair diante e atrás das câmeras em ‘Chuva’), Ida Lupino, Jane Russell e a sublime Suzanne Pleshette de ‘Um Clarim ao Longe’. Ela também analisa o fenômeno ‘Fúria Sanguinária’ – o gângster Cody, James Cagney, no alto do prédio, gritando para a mãe que chegou lá – em ‘Oedipus Wrecked’. Outro dia, alguém me cobrou um texto sobre os injustiçados do Oscar. Walsh nunca foi premiado pela Academia de Hollywood, e com aquela carreira. Gostei demais do livro de Marilyn Ann Moss. Ex-crítica do ‘The Hollywood Reporter’ e film scholar, ela também escreveu ‘Giant: George Stevens, A Life on Film’. Taí outro livro, sobre outro grande veterano, atrás do qual já estou indo.

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