As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

As memórias do cinéfilo Langlois

Luiz Carlos Merten

20 Janeiro 2017 | 23h13

Aproveitei meu voo de volta para ler Memórias de Um Cinéfilo. A seleção dos escritos de Henri Langlois, lendário criador da Cinemateca Francesa, na edição argentina de El Cuenco de Prata. O original saiu na França pela Flammarion. Conhecia a reputação de Langlois e até acompanhei à distância o affair que se criou em 1968, quando foi afastado da Cinemateca. Houve uma mobilização nacional e internacional, e François Truffaut chegou a incluir o assunto em Beijos Proibidos/Baisers Volés, o segundo melhor filme da saga de Antoine Doinel/ Jean-Pierre Léaud, com Os Incompreendidos/Les 400 Cent Coups. Costa-Gavras, presidente da Cinemateca Francesa em 2014, é quem faz a apresentação. Diz uma coisa que mexeu comigo – Langlois não era crítico, mas alguém que compartilhava com o leitor o prazer de ver e amar os filmes. Eu, às vezes, me sinto assim. Odeio reduzir o mundo e o cinema a meia-dúzia de postulados e autores. E Costa acrescenta – justamente por não ser crítico, e amar o cinema, não determinados filmes, Langlois encarnou o espírito da Cinemateca, ao mesmo tempo museu do cinema e UTI para a salvação de todos os filmes ao seu alcance, independentemente de gosto ou valor. Porque todo filme, no fundo, vale como documento da sua época. Langlois sabia disso e batalhava por filmes dos quais não gostava com a mesma veemência que dedicava aos que amava. As m… das comédias que tanto irritam nossos críticos – a maioria formada de analfabetos de cinema – vão permanecer como documentos de época e quantos dos grandes filmes que reverenciamos como grandes experiências estéticas serão avalizados pelo tempo? Interessante questão. Truffaut, que respeitava Langlois, escreveu seu célebre artigo contra uma certa tendência do cinema francês. Vários autores que Truffaut, como crítico, desprezava são incensados por Langlois. René Clair vale tanto quanto Jean Renoir e Jean-Luc Godard (a ‘vanguarda’) e Marcel Carné, Julian Duvivier, René Clément etc todos são devolvidos ao patamar que merecem. Claro, Truffaut estava limpando o terreno para sua geração. Não foi nenhum modelo de honestidade intelectual. Salvava-o a paixão pelo cinema e, digamos, o talento expresso em alguns filmes. Maior que Truffaut – maior que todos? – era Claude Chabrol e eu nunca vi uma análise como a de Langlois (nem a de Robin Wood) sobre as cabeçadas que ‘Claude’ teve de dar antes de ascender ao Olimpo. Gostei muito da precisão das análises de Langlois, mas é que vai também uma questão de afinidade com os grandes autores que ele admira – Dovjenko (e Terra nem é seu preferido entre os filmes dele), Luchino Visconti, Robert Aldrich, Alfred Hitchcock, Howard Hawks, George Cukor… E Langlois faz revelações importantes, coisas que nem sabia, sobre quando André Bazin e ele estiveram em São Paulo, por amizade a Paulo Emílio Sales Gomes. Langlois fala na desafortunada viagem que Bazin não deveria ter feito e sugere – não, afirma – que acelerou sua morte. Mas Bazin não deixaria por nada de vir, porque foi um chamamento de Paulo Emílio e ele era amigo de seus amigos. Sentiu aquele chamado como um dever. Só Langlois, com o peso de sua autoridade, para traçar o retrato dessa vida secreta, cotidiana e concluir que foi o o melhor de Bazin. É onde está sua grandeza, não nas teorias de O Que é o Cinema? Recomendo Memórias de Um Cinéfilo. Deveria até sair no Brasil. Na última vez que escrevi isso, sobre E Quatro Voltaram – sobre os diretores de Hollywood que foram para o front da 2.ª Guerra (John Ford, George Stevens, Frank Capra e Fred Zinnemann) – não sei se alguém leu, mas o livro saiui. Memórias de Um Cinéfilo merece uma edição brasileira.