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As maravilhas

Luiz Carlos Merten

04 de novembro de 2014 | 09h49

Estou indo finalmente à cabine de Interestelar. Já houve uma, mas foi durante a Mostra e eu estava entrevistando não lembro mais quem. Tenho ouvido coisas bem desconcertantes sobre o novo Christopher Nolan. Miguel Barbieri, com quem dividi a cabine de Made in China, me disse que não gostou. Tuna Dwek disse que tem uma coisa que ainda não havia conseguido deglutir – já faz uma semana isso. Eu confesso que estou nos cascos, Ansioso. Nolan não é somente um grande diretor que demorei para assimilar. Não gosto daquele filme dele contado de trás para a frente nem do filme noir às claras, no gelo. Em compensação, amo a trilogia O Cavaleiro das Trevas e acho A Origem/Inception o máximo. Nolan é um visionário, um daqueles autores que, trabalhando no cinemão, se utilizam de todos os seus recursos – imensos – para fazer avançar a linguagem e a política. Parece que foi preparativo para Interestelar. Estava zapeando outro dia na TV paga e entraram as imagens do último Batman. Fiquei siderado. A perseguição de Christian Bale e Anne Hathaway ao caminhão em que Marion Cotillard leva a bomba… Que que é aquilo? Na edição de Empire nas bancas há uma longa reportagem sobre Interestelar. Visita a set, entrevistas com os atores e o diretor. Não li. Só as chamadas. Nolan diz – ‘Não se pode fingir que 2001 não existe.’ Interestelar tem sido comparado a 2001, Nolan quer ser Stanley Kubrick, dizem seus detratores, como se fosse um pecado. Também não gostaram de Alfonso Cuarón e do filme dele com a Sandra Bullock. Tentaram até negar as conexões de Gravidade com a odisseia no espaço. Meninos, eu vi. Tenho idade para dizer que assistir à estreia de 2001. Foi uma raridade. O filme estreou simultaneamente em todo o Brasil. Naquele tempo, não era praxe. Vi num sábado, à tarde, a primeira sessão em Porto Alegre, no antigo cine Astor. Na segunda, já publiquei minha crítica. Amei desde a primeira hora, mas se passaram dias até que surgissem as críticas no centro do País. E foram prudentes. Muitos não sabiam o que Kubrick estava pretendendo. Acho que foi o maior elogio que recebi na vida. Jefferson Barros, um dos meus gurus – com José Onofre -, disse que Kubrick deveria ler meu texto para entender o filme que havia feito. Era muita pretensão nossa, e ao mesmo tempo foi uma coisa linda, um cara com a cultura e erudição dele, me dizer aquilo, a um garoto que começava a escrever. Passaram-se quantos? 46 anos. Ainda guardo aquela lembrança. Como Greta Garbo, que teria dito a Jean Cocteau, ao entrar para a sessão de A Bela e a Fera, repito – ‘Christopher, étonne moi.’

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