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As Jays do Oscar

Luiz Carlos Merten

03 de fevereiro de 2016 | 10h56

Fui ontem pela manhã à cabine de imprensa de O Quarto de Jack. Gostei médio do filme de Lenny Abrahamson. Achei a parte do começo, no quarto em que Jay e Jack estão presos, bem interessante. Depois, quando saem, a prisão transfere-se para o mundo lá fora, outro ponto para o diretor. Mas Hollywood não pode contar uma história dessas sem dar um fecho ‘positivo’. Não tinha lido nada, não sabia nada, mas no debate do filme de Bernardo Cancella Nabuco, em Tiradentes, intuí que o filme dele, Urutau, que passou na Mostra Transições, seria muito mais forte, como realmente é. E pode ser bobagem, mas achei muito curioso que a personagem de Brie Larson chame-se Joy, como a de Jennifer Lawrence no longa de David O. Russell, do qual gostei mais – mas é para ser do contra, alguém dirá. Pode ser que me engane, mas a última vez que houve coincidência de nomes de personagens entre concorrentes do Oscar foi em 1998, e muito mais impressionante. Fernanda Montenegro e Vinicius Oliveira chamam-se Dora e Josué em Central do Brasil, de Walter Salles – e são os mesmos nomes de mãe e filho em A Vida É Bela, de Roberto Benigni, que também concorria ao Oscar de filme estrangeiro (e levou, além de outras estatuetass). Brie está sendo uma unanimidade. Ganhou o Globo de Ouro de atriz dramática e o troféu do SAG, Sindicato dos Atores, o que a torna imbatível para o prêmio da Academia, mas tenho para mim que existem interpretações melhores entre as concorrentes deste ano. A ‘outra” Jay e a Carol de Cate Blanchett. Brie é muito boa, e uma atriz inteligente. Pauta a interpretação dela pela do garoto que faz Jack, e ele é o protagonista da história. Parei o post e fui pesquisar os indicados de ator e coadjuvante para confirmar. O garoto Jacob Tremblay não concorre, o que me parece absurdo, pois o melhor, nessa história toda, é ele. Gostei da história do cabelo comprido e da ‘força’. Evocou-me um velho filme de Andrzej Wajda, Sansão, a Força contra o Mal, do começo dos anos 1960, em que ele transpõe o mito bíblico para a 2ª Guerra, para evocar a resistência judaica ao nazismo na Polônia. Sansão não tem a fama de outros filmes de Wajda da época, mas, assim como a cruz invertida de Cinzas e Diamantes, sempre achei seminal outra imagem que ele constrói no filme. Os nazistas constroem uma cerca para confinar os judeus. Prego, martelo, madeira. Forma-se uma cruz e o tema de Wajda é a responsabilidade dos cristãos no massacre dos judeus poloneses. Ainda faltam quantas? Três semanas para o Oscar. Os indicadores apontam tendências. O prêmio do Sindicato dos Produtores foi para Spotlight, e teria de pesquisar para ver exatamente quantos anos são, mas há muito tempo o filme que vence o Producers Guild ganha também o Oscar principal. Para reforçar, Spotlight venceu o prêmio de interpretação coletiva do SAG. Os atores consideraram o melhor elenco o do filme de Tom McCarthy, mas não creio que ele possa vencer nas duas categorias, de filme e direção. Algo me diz que poderemos ter um Oscar dividido – filme para Spotlight e direção para Alejandro González-Iñárritu, por O Regresso. E ah, sim, pensei nisso outro dia. Ridley Scott está indicado para melhor filme e diretor por Perdido em Marte. Não gosto do filme, mas sei de muita gente que o ama. Quando Ridley venceu melhor filme com Gladiador, não ganhou a estatueta de direção, e nem poderia, porque havia feito o pior filme daquele ano, o Hannibal Lecter em que Julianne Moore substituiu Jodie Foster. Este ano, concedamos, mesmo a contragosto, que Perdido em Marte possa ser o melhor filme (argh!). Derruba a candidatura o fato de que Ridley Scott fez também o pior filme – aquele horroroso Êxodo, com Christian Bale. Até Os Dez Mandamentos – O Filme consegue ser melhor, e é uma novela editada. Ridley Scott tem grandes filmes que eu vou defender até a morte, mas, quando é ruim, justiça seja feita, o cara é insuperável.