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As Crianças

Luiz Carlos Merten

09 de novembro de 2019 | 09h46

Bira – meu editor, Ubiratan Brasil – me chamou e fomos ver na quinta à noite As Crianças, no Sesc 24 de Maio. A peça de Lucy Kirkwood havia chegado precedida de grandes elogios por parte da crítica do Rio. Não é nem preciso evocar o que tenho visto no meu retorno ao teatro, após a Mostra – Os Sete Afluentes do Rio Ota, Mãos Sujas, montagens que mexeram muito comigo -, para concluir. Decepcionei-me. A peça passa-se num mundo pós-apocalíptico, fazendo interagir três personagens envolvidos no empreendimento da energia atômica. Ao contrário das duas peças citadas, que utilizam dispositivos de imagens, As Crianças usa as palavras, e personagens que descrevem verbalmente rubricas da ação, para potencializar o teatro, e o palco, como territórios do imaginário. Por mais verdadeiro (a essência do teatro?) que possa ser o recurso, direção (de Rodrigo Portella) e interpretação (de Andréa Dantas, Mario Borges, Analu Prestes), no limite do naturalismo, não conseguiram me envolver muito. Não consegui sentir a poética e muito menos o que poderia ser a densidade do texto, com seus personagens que se agarram à vida, embora presos ao passado e sem perspectivas de futuro. Sorry, mas não gostei. Encasquetei, inclusive, com o título. Ninguém é novo em cena. Por que crianças? Balões, brinquedos ajudam a compor o cenário. Mas talvez a ideia da infância relacione-se ao jogo lúdico dos atores, e às lembranças. De qualquer maneira, achei curioso como, embutidos em As Crianças, estão temas de Rio Ota e Mãos Sujas. Afetos, perdas, comprometimentos. Gostaria de ter gostado mais de As CRiançass. No programa, Mario Borges escreve um texto, esse sim, poético, para resgatar a amizade com Analu Prestes. A primerira lembrança que tenho dela, diz… E ele a cita fazendo o diabo no mais abusado dos espetáculos de Zé Celso, Gracias, Señor. Fui pesquisar e descobri que se trata de uma montagem de 1972, no rol dos clássicos do Oficina – Galileu, Roda Vida, O Rei da Vela, Pequenos Burgueses, Na Selva das Cidades. O teatro como rerino do efêmero. Quem viu, viu. Analu, aprontando no palco, permanece viva na lembrança de Mario. E eu, aqui, só posso imaginar.

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