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Arte maravilhosa, de olhares e gestos, palavras e silêncios

Luiz Carlos Merten

11 de novembro de 2016 | 08h18

Arrisco-me a chegar atrasado no meu café, mas não resisto a acrescentar mais um post. Fui rever Indignação no Sesc Pompéia. Última sessão, 21h40. Só Dib Carneiro e eu na plateia. Um silêncio de dar gosto. Só ouvíamos o filme. O diálogo taco no taco do garoto com o ‘dean’, reitor. Com a mãe. Os dois perfeitamente razoáveis, mas conservadores Não podem perceber o turbilhão que consome Logan Lerman. Percy Jackson despido da sua condição de semideus, reduzido à fragilidade de humano. Fortaleza só de ideias. O reitor levanta-se e coloca as mãos sobre os ombros do rapaz. A mãe, depois de fazer sua chantagem, repete o mesmo movimento. Querem protegê-lo, ou se apossar dele? Havia gostado (muito) de Indignação. Gostei mais ainda. Grande James Schamus, o cara que eu tanto desprezei como presidente do júri da Berlinale em 2015. E falando em gesto, o diálogo – o acerto de contas? – de André com o pai em Lavoura Arcaica termina com a mãe, que nem nome tem – a extraordinária atriz Juliana Carneiro da Cunha -, abraçando o filho, Selton Mello, e a cena é vista de trás. O mesmo gesto de Indignação, mas com significado diferente. O filme de Schamus termina do mesmo jeito que começa. A velha diante da parede ornamentada com aquele papel, representando vasos de flores. Só no desfecho captamos o sentido. O cinema é uma coisa maravilhosa. Uma arte de olhares e gestos. De palavras e silêncios. Como tantas vezes – I’m in heaven.