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Ardida como pimenta

Luiz Carlos Merten

13 de maio de 2019 | 11h17

Estava saindo de casa quando meu editor, Ubiratan Brasil, conseguiu me localizar, pedindo um texto sobre Doris Day para o online. Morreu a virgem do hímen de aço – aos 97 anos. Doris, que nasceu no mesmo dia e mês, 3 de abril, que Marlon Brando, é a prova de que ascendente é tudo. Eram do mesmo signo, mas não podiam ser mais diversos. Ele, o grande transgressor; ela, a careta. Doris tinha 17 anos quando se tornou cantora de big bands, em 1939. Em 1941, já estava no cinema. Como cantora, seu primeiro hit foi Sentimental Journey, de 1945. Nos filmes, estourou como Calamity Jane, a célebre pistoleira do Velho Oeste, em Ardida como Pimenta. Filmou com Charles Vidor, Ama-me ou Esquece-me, e Alfred Hitchcock, O Homem Que Sabia Demais, provando ser ótima atriz dramática. Em 1959, com Rock Hudson, coestrelou Confidências à Meia-Noite, e o filme virou um fenômeno. Ele, gay enrustido, fazia o garanhão que tentava levar Doris para a cama. Ela resistia – ou fingia que, como se esperava das mulheres, na época. Revi Confidências numa reprise, na TV, e diverti-me muito com a inteligência do roteiro (premiado com o Oscar de história) e a malícia da direção de Michael Gordon. Coisa de Fernando Pessoa – o artista como fingidor. Rock Hudson finge ser gay para vencer a resistência de Doris. Revira os olhos, entorta o mindinho ao pegar a xícara. Imagino que fosse uma festa rodar essas cenas, já que nos bastidores todo mundo sabia de tudo e o ‘rocha’ Hudson era só para consumo de fãs. Tenho para mim que Doris, malgrado a sua persona de certinha, estava mais para Calamidade Jane – era ardida como pimenta. Um dos maridos roubou sua fortuna. Ela sobreviveu. Chegou quase aos 100. Penso nela e me vem a mãe desesperada que canta – com a voz dilacerada, justo Doris, que era tão afinada – Che Sera Sera, à espera de que o filho sequestrado a ouça no clássico de suspense de Hitchcock. Em definitivo, Doris Day faz parte do meu panteão de cinéfilo.

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