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Árabes, coreanos… Um olhar (dois olhares?) para a diversidade

Luiz Carlos Merten

10 de agosto de 2016 | 09h42

Tive ontem um dia bem agitado. Pela manhã, entrevistei a dupla Murad Boucif/diretor e Jawad El-Boubsi, do filme marroquino Os Homens de Argila, que abre hoje a Mostra Mundo Árabe. Adorei os dois. Murad me falou da dificuldade – 12 anos! – que foi fazer o filme que dramatiza a experiência dos jovens das colônias no Norte da África que foram recrutados para integrar os Exércitos coloniais, lutando contra os nazistas, durante a 2.ª Guerra. Decorrido todo esse tempo, os europeus ainda se recusam a admitir que cidadãos considerados de segunda categoria libertaram o continente e o mundo. E Jawad, ator de teatro, bonito, talentoso e doce, belga de nascimento – a ascendência é que é do Marrocos -, me contou a mesma coisa que Roschdy Zem, o ator que dirigiu Chocolate na França. Só o chamam para fazer criminoso. Nada justifica a barbárie, os ataques do terror, mas me pergunto se o radicalismo islâmico teria a mesma facilidade para recrutar seus mártires se tantos jovens não fossem marginalizados, e não sofressem tanto preconceito? No vídeo gravado para A Floresta Que Anda, o espetáculo/performance/instalação de Cristiane Jathahy, o jovem congolês, lamentando o ataque ao Charlie Hébdo, deixa no ar a pergunta sem resposta – por que, quando o terror ataca na África, as pessoas não se solidarizam. Por que não são ‘Congô’? A Mostra Mundo Árabe está na sua 11.ª edição, consolidada no calendário cultural da cidade. Vai até 28 e, entre outras atrações, no bloco dedicado ao cinema palestino, traz o curta indicado para o Oscar, Ave Maria. Jawad foi jogador de futebol semi-profissional, antes de virar ator. Murad, o diretor, me disse que tem orgulho de representar a diversidade, mas que, cada vez mais, o cinema é ‘businéss’ (en français), e quem não é do mainstream tem de penar para mostrar um outro olhar. O problema é que justamente o calendário cultural tende a se atropelar. Participei ontem à noite de um debate na abertura de outra Mostra, dedicada ao Cinema Coreano na abertura dos Jogos Rio 2016. Têm havido festivais de cinema coreano na cidade, mas esse, chamado de K-Action, possui um perfil particular. No próprio site do Centro Cultural, K-Action é definido como um evento que homenageia figuras que podem ser consideradas heroicas para a nação coreana, por meio de uma seleção de cinco filmes, entre épicos, dramas de superação e comédias, produzidos nos últimos sete anos. O filme de abertura foi Ode a Meu Pai, que segue por décadas a trajetória de um garoto que vira homem, envelhece e até o fim tenta honrar a promessa que fez ao pai, quando garoto, que iria cuidar da família para ele. No turbilhão da guerra, a 2.ª, o menino solta a mão da irmã, ela se perde e ele passa o filme consumido pelas culpa. A superação vem de uma forma bonita e emocionante e eu, como boa parte do público – todo? -, chorei copiosamente. O cinema sul-coreano, à parte autores como Hong Sang-soo e Kim Ki-duk, é marcadamente de gênero. Terror, gângsteres, thriller etc. Ode a Meu Pai é um melodrama no estrito sentido sirkiano. Tudo se passa em família, mas a história da família concentra a da Coreia. A Mostra é muito curta. Vai somente até sexta, 12. Ode a Meu Pai terá nova exibição amanhã, quinta, às 19h30. E hoje à noite, também às 19h30, vou tentar ver O Almirante – Correntes Furiosas. Sobre o cartaz havia um fita colada, dizendo que se trata do maior sucesso da história do cinema sul-coreano. Em todo o mundo, e mais do que a França e até a Índia, com Bollywood, ouço sempre que a a Coreia é o único país em que a produção nacional supera a de Hollywood na bilheteria. O maior sucesso, então, tem de ser muito especial. Espero que vocês também fiquem tentados a conferir.