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Antoine Fuqua e seus sete magníficos

Luiz Carlos Merten

15 de setembro de 2020 | 11h17

O que me resta, morando sozinho, em pleno isolamento, senão zapear? Muitas coisas, claro, mas zapear é uma delas. No domingo, zapeava quando vi que iniciava Sete Homns e Um Destino, a versão de 2016, de Antoine Fuqwua. É um diretor que respeito muito – um excepcional montador. Aliás, é curioso. Compartilhava com Carlos Reichenbach a admiração pelo Brian De Palma de Scarface. Com Jeferson De, nosso elo é o Fuqua. Conheci-o na junket de Rei Arthur. Anos depois, numa visita ao estúdio da Columbia/Sony, fui à ilha de edição em que Fuqua montava O Protetor. Éramos um grupo pequeno de jornalistas – cinco, de todo o mundo. A cena, aquela em que Denzel Washington entra no QG dos russos, reconhece o espaço e os personagens, antecipa o que vai fazer e executa a ação – colocar os caras fora de combate – com precisão absoluta. Fiquei impressionado como Fuqua conseguiu criar um enclave negro no estúdio. Havia redigido o post até aqui. Um olho no notebook, outro na TV, que começara a exibir A Rainha de Katwe na Tela Quente da Globo, na noite de ontem. Não havia visto o filme de Mira Nair, não sei nem se foi lançado no Brasil. Sei que teve lançamento limitado em todo o mundo. No quadro do Black Lives Matter talvez tivesse hoje melhor sorte nas salas. Enfim, recomeçando – gosto muito do Sete Homens de John Sturges, de 1960, que, para mim, marca o início de certas transformações estilísticas do western que terminaram levando ao spaghetti. Música, fronteira mexicana, pistoleiros de aluguel de caráter duvidoso, etc. Pensei comigo que veria somente até a cena em que os sete enfrentam os emissários de Batholomew Bogue, o bad guy de Peter Stormare, que manda na cidade. Fuqua manteve muita coisa, mas também mudou muita. Uma comunidade de pioneiros, a garota que contrata os sete magníficos e a formação/conformação do grupo que não poderia ser mais heterogênea. O pistoleiro negro de Denzel substitui o Chris de Yul Brynner, tem o chicano, o asiático, o mestiço índio. A cena do tiroteio é, de novo, uma aula de edição, mas o que me encanta é a cena em que Martin Sensmeier, como Red Harvest – o pele-vermelha -, vence o índio aliado de Bogue e diz a frase redentora, quando o mata – ‘Você é uma desgraça’. Não tenho o instinto assassino, mas o Brasil atual, de Jair Bolsonaro e sua ninhagem, é uma desgraça atrás da outra. Sturges inspirou-se em Akira Kurosawa, transpondo Os Sete Samurais para o Velho Oeste. Os camponeses que contratam os sete mercenários para proteger suas colheitas. Agora, outra comunidade, e a mulher decidida, que pega em armas. A revolta dos excluídos? A preparação da comunidade para a luta e a formação étnica me lembraram muito Bacurau. Terão Kleber Mendonça e Juliano Dornelles visto o Fuqua? Ou foi o meu olhar sobre os dois filmes? Uma palavra final sobre Chris Pratt – é o Steve McQueen de Fuqua?

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