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Antes tarde que nunca, Doctorow

Luiz Carlos Merten

27 Julho 2015 | 09h41

Cá estou há um tempão sem postar, e num momento de crise. Na sexta-feira, sentou-se ao meu lado, no jornal, um carinha para explicar como e por que não é mais possível fazer um, blog nos meus termos. E ele me contou como, nos instrumentos de busca do Google, o próprio sistema, automaticamente, vai selecionando e jogando para o fundo os resistentes como eu, sem fotos nem trailers nem links – whatever. O próprio sistema me exclui e é preciso que o interessado me procure, especificamente, para m,e encontrar. Muito interessante. Agora mesmo, estou vindo do café na padaria. Havia uma reportagem na TV sobre jovens que resolveram seus problemas profissionais no mundo virtual, criando sites de busca e de compras. Só consumo. O admirável mundo novo, democrático e libertário, baseia-se no consumismo. A própria liberdade de consumir é induzida. A de pensar, então, nem se fala. Estamos assistindo, nesses tempos, a um massacre do livre pensamento. O que me leva a um post que queria fazer há dias. Sobre E.L. Doctorow. Paulo Francis, na época do Diário da Corte, gostava de dizer que Na Época do Ragtime, que Milos Forman adaptou do romance de Doctorow, era o maior ataque de Hollywood ao racismo. Sempre concordei com ele. É um filme pelo qual sou louco. Doctorow morreu e eu só soube do fato no dia seguinte, ou dois dias depois. Às vezes, um jornal é o melhor lugar do mundo para se estar desinformado. Você fica focado em alguma coisa e outra está ocorrendo do lado, e você nem vê. Doctorow morreu na semana passada, dia 21. Aos 84 anos. Em 1981, quando fez Ragtime, o checo Forman, que se estabelecera em Hollywood fugindo dos soviéticos que encerraram com seus tanques a primavera de Praga, já recebera seus primeiros Oscars (de filme e direção) por Um Estranho no Ninho, em 1975. Outros viriam por Amadeus, em 1984. Ragtime sequer foi indicado parea melhor filme. Acho que só Howard E. Rollins foi indicado para melhor coadjuvante, mas perdeu para (Sir) John Gielgud, o mordomo de Arthur. Rollins está no epicentro dramático de Na Época do Ragtime como Coalhouse Walker Jr., o negro que pega em armas numa sucessão de humilhações que incluem provocações da polícia e a morte de sua mulher por espancamento, quando ela ousa se dirigir ao chefe de polícias reclamando justiça para o marido. Em 1981, Ronald Reagan já havia iniciado sua primeira presidência. No fim daquela década, o império soviético ia ruir com a queda do Muro de Berlim e Paulo Francis, que não era exatamente um ‘comunista’, antecipava que era uma m… porque era o único limite a uma concepção neoliberal do mundo – todo poder ao mercado -, que se tornou hegemônica. Em 1981, Carruagens de Fogo ganhou o Oscar de melhor filme e não deixa de ser um milagre, ou uma provocação da Academia, que Warren Beatty tenha sido melhor diretor por Reds/Vermelhos, sobre o envolvimento do norte-americano John Reed na Revolução Russa. Naquele ano, o ataque de Forman ao racismo – no quadro de uma América que, na ficção de Doctorow, se transformava com a nova mídia, o cinema, que ia fortalecer a identidade nacional – sequer foi indicado para os prêmios da Academia, que o diretor só voltou a ganhar com o muito bom (mas intemporal) Amadeus. O mundo estava mudando, sim, e Forman percebeu isso ao colocar James Cagney, em seu último papel, como o artrítico, paralítico e brutal chefe de polícia. Abaixo o bom e velho humanismo, os tanques arrasaram a primavera de Praga e, no Ocidente, os gângsteres chegaram ao poder. Di-nhei-ro. Tudo isso estava em Na Época do Ragtime e o filme tinha Howard E. Rollins, belo, carismático e extraordinário como ator, mas vá lá se saber por que, assim como em A História do Soldado, de Norman Jewison, embora ele fosse protagonista, o público preferiu o coadjuvante Denzel Washington (que ainda não era sombra do que se transformou), na América de Reagan não havia espaço, nem na ficção, para a afirmação de um personagem como Coalhouse Walker, Jr. Naquela época, o jovem Jamie Foxx, pianista como Coalhouse, pagava os estudos entrando pela porta dos fundos nas mansões em que tocava para sobreviver. Certa vez, ele não estava apropriadamente vestido e o filho do dono da casa lhe emprestou o black-tie. Quando Foxx tentou devolver, ouviu da madame – ‘Pode ficar, ele jamais vestiria de novo uma roupa usada por um negro.’ Tudo isso passou pela minha cabeça quando soube da morte de Doctorow. Pensei também em Daniel, que Sidney Lumet adaptou em 1983 de O Livro de Daniel, também de Doctorow, sobre o filho de Julius e Ethel Rosenberg, condenados e executados como espiões nos EUA do macarthismo. Interpretado por Timothy Hutton, o jovem tenta descobrir a verdade sobre os pais, mas choca-se com um muro de desconfiança e intolerância. Em seus melhores livros, e melhores adaptações para o cinema, Doctorow confrontava a ‘América’ com seus fantasmas. E eu o amava por isso. Termino o post e penso que pode ser um dos meus últimos – nesse formato, pelo menos.