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Antes do Amanhecer, e aquele beijo de Céline e Jesse

Luiz Carlos Merten

30 de março de 2020 | 10h53

Ontem, ao redigir rapidamente o post sobre a maratona Almodóvar, no Telecine Cult, citei a comédia Sorte no Amor, mas havia visto antes um Richard Linklater adorável. Before the Sunrise, Antes do Amanhecer. Viajei. Em 1995, fui pela primeira vez ao Festival de Berlim – há 25 anos. Assisti ao Linklater com Ethan Hawke e Julie Delpy, e o filme recebeu o Urso de Prata de melhor direção (Bertrand Tavernier venceu o de Ouro, por A Isca.) Lembro-me de haver entrevistado o diretor, que anunciou que, em dez anos, o seu casal se reencontraria na tela. Foi o início de uma trilogia e, realmente, em 2004 veio Antes do Por do Sol, seguido, em 2013, por Antes da Meia-Noite. Ainda em Berlim, em 2014, Linklater mostrou outro projeto que se estende no tempo, Boyhood – Da Infância à Juventude, e eu pude entrevistar o diretor e a atriz Patricia Arquette, que seria premiada no Oscar (e fez aquele discurso feminista). Contei aqui no blog como gostei de (re)ver Love Story, mas nada como um filme depois do outro. Antes do Amanhecer foi escolhido como uma das 25 melhores comédias românticas de todos os tempos numa pesquisa do The Guardian, e a segunda para os leitores do jornal. O filme é muito bem escrito, e interpretado. A maneira como o diálogo se desenvolve no trem e o convite de Jesse para que Céline desça com ele em Viena são tão verossímeis – a impulsividade e a construção do afeto – que o filme se torna simplesmente irresistível. François Truffaut, um romântico que desconfiava do romantismo, via o amor como um embate entre o gesto impulsivo e a palavra consciente. É o que se verifica em Antes do Amanhecer. O gesto impulsivo – ‘Desça comigo’, o primeiro beijo. A palavra consciente – toda a discussão sobre por que não fazer sexo. Sempre gostei muito de Antes do Amanhecer – na verdade, de toda a trilogia ‘Antes’. Mas ontem foi mágico. Céline, no telefonema fictício – “Ele (Jesse) beija como adolescente.” (Curioso como essa fala reverberou num Almodóvar que vi a seguir, A Lei do Desejo. Eusebio Poncela explicando ao afoito Antonio Banderas que não se beija como quem desentope pia, com chupões. O beijo do Linklater tornou-se clássico e foi indicado para o prêmio MTV da categoria, mas perdeu.) Em 1995, Julie Delpy já se convertera numa jovem atriz cult, por haver interpretado o episódio intermediário da trilogia das cores de Krzystof Kieslowski, A Igualdade É Branca. Durante o processo da trilogia, ela própria escreveu, dirigiu e interpretou Dois Dias em Paris e Dois Dias em Nova York. Ethan Hawke casou-se com Uma Thurman em 1998. Separaram-se num processo litigioso (2003/2004) e anos depois ele se casou com a babá de seus filhos, que havia sido o pivô do divórcio. Não duvido que vida pública e vida privada tenham tido seu papel na trilogia. Linklater sempre contou que a origem dos filmes foi seu encontro casual com uma mulher, durante uma viagem. O caso não teve desdobramento, até porque ela morreu num acidente, antes da estreia de Antes do Amanhecer. Para concluir, podem não ser muitos, mas existe um acerto número de filmes sobre boys meets girl e como a ligação de uma noite evolui para uma relação mais duradoura. John e Mary, de Peter Yates, com Dustin Hoffman e Mia Farrow, de 1969, e Eu Te Amo, de Arnaldo Jabor, com Sonia Braga e Paulo César Pereio, de 1980, inscrevem-se na tendência. A diferença é que esses filmes passam-se quase todos entre quatro paredes, enquanto o casal de Antes do Amanhecer passa a noite caminhando (e conversando) em Viena.

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