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Antes da Meia-Noite

Luiz Carlos Merten

05 de junho de 2013 | 01h05

Havia visto em Berlim, mas confesso que não tive condições de desfrutar integralmente das benesses de Antes da Meia-Noite, que encerra a trilogia ‘Before’, do diretor Richard Linklater, uma parceria com os atores Julie Delpy e Ethan Hawke. Permitam-me explicar. Os filmes muito dialogados em língua inglesa são sempre um problema na Berlinale. Todos os filmes não americanos passam com legendas em inglês. Os que são em língua inglesa passam com legendas em alemão, e aí viram um inferno para mim. Entendo, mas não vou dizer que perfeitamente, o inglês porque existem nuances – nas pronúncia, no vocabulário – que às vezes me escapam. Soiu capaz de entender o que as pessoas dizem, mas a gente tem (eu tenho) a tendência de ler as legendas, e como alemão e grego são a mesmas coisa para mim, as legendas, que fixam meu olçhar sem que as entendas, muitas vezes dispersam minha atenção. Havia gostado de Antes da Meia-Noite, mas sabia que teria de ver o filme de novo com legendas. Vi-o hoje pela manhã, numa cabine no Frei Caneca. Se já havia gostado, gostei mais ainda. O ponto de partida é a despedida de Ethan Hawke do filho, que volta para a casa da mãe, após passar férias com o pai na Grécia. Hawke falas compulsivamente com o garoto, que mal responde. Mas quando ele fala é para recompensar o pai – foram as melhores férias de sua vida. O filme prossegue com o paraíso e o inferno do casal Hawke/Delpy. Cenas de um casamento. Quem viu Antes do Amanhecer e Antes do Entardecer conhece o formato – Hawke e Julie falam. Eles continuam falando, e dizem coisas interessantes sobre masculino/feminino, uniões, separações etc. Mas mais até do que ops dois primeiros filmes, o terceiro termina por se impor pelas mise-en-scène. A família, a casa, o casamento, está tudo lá, e com a paisagem grega e as referências aos ‘clássicos’ como estímulos. Há uma cena particularmente lograda, durante um almoço. Os personagens falam de sexo, de gêneros (humanos). Falando s grosso modo, Linklater não precisa de mais do que cinco sequências, q1ue trata diferentemente. A primeiras é um longo diálogo no carro, quando o casal voltas do aeroporto. Linklater trasta cada uma dessas cenas de um jeito peculiar. O diálogo pode se dar no carro, com a paisagem que passa de cada lado. Pode ser um travelling, quando a câmeras segue o casal que caminha por uma rua do Peloponeso. Linklater traballha cada cena isoladamente. Plano-sequência, travelling, campo/contracampo. Linklater e seu elenco discutem tudo – a a arte, a linguagem, a vida, o casal. Não tenho outra palavra para definir a primeira hora – é brilhante. Depois, para o meu gosto, a cena do hotel, que leva a uma ruptura, não satisfaz. O epílogo restabelece a excelência. O cômputo geral é de que o filme não é perfeito, mas é  ótimo. Linklater tem filmado seu casal a cada dez anos, mais ou menos. Ele espera viver mais um 50 anos, para flagrar seu casal em novos momentos de vida. A trilogia não é um fim, mas um começo. Com os defeitos que possa ter, amei.

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