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Antecipando o Oscar (1)/E o grande ausente é… Spike Lee!

Luiz Carlos Merten

27 de fevereiro de 2016 | 11h02

De hoje até amanhã pretendo fazer uma série sobre os indicados para o prêmio mais cobiçado do cinema. Tenho a impressão de que fui injusto com Spike Lee. Escrevi outro dia, no blog, num post sobre a questão racial que atingiu a Academia, que ele era ‘penetra’ no Oscar. Não que não seja, mas Spike já ganhou um Oscar honorário (havia me esquecido) e essa é a melhor forma de a Academia se achar quites com ele, tipo assim – ‘Vai circulando, Spike.’ Mas aí vi em Berlim Chi-Raq. É o melhor filme de Spike Lee desde Faça a Coisa Certa. Deveria estar no Oscar, mas para isso a Academia teria de ter uma abertura para o novo, o original, o transgressivo, que não tem. Hollywood ganhou no ano passado mais dinheiro que em qualquer outro momento recente de sua história. Star Wars – O Despertar da Força, Jurassic World e Velozes e Furiosos 7 arrebentaram em escala planetária e estabeleceram novos patamares de faturamento. Gosto de cinemão – vocês sabem -, mas cada vez que penso em O Despertar da Força tenho a impressão de ter sido falso alarme, o falso bom filme, enquanto Jurassic World, que revi no avião, somente aumenta meu entusiasmo por uma grande aventura. A cada vez que revejo o filme descubro coisas. Não esperava encontrar nenhum desses filmes entre os nove indicados, mas o Chi-Raq tinha de estar. O problema é que a Academia ainda tem um pensamento conservador. A indústria fatura tanto com produtos de consumo – alguns de qualidade, como não? -, que na hora de premiar os melhores busca sempre os filmes que seus integrantes consideram superiores, artísticos, mas não são. Em geral, são filmes de prestígio, que faturam pouco mas decentemente. Essas histórias de realeza, de tortinhos (me desculpem, mas se não é super-herói já conta pontos no Oscar; eu, pelo contrário, gostaria de ter visto Henry Cavill indicado para melhor ator por Superman), nada disso é grande arte, me desculpem. O Discurso do Rei! Por que não Os Miseráveis, do mesmo Tom Hooper, com a cena – a nova escadaria de Odessa – da Comuna de Paris? Chi-Raq deveria estar no Oscar. Essa é a verdadeira, a leitura correta por trás da questão racial do Oscar de 2016. A releitura de Lisistrata, por Spike Lee, é um acontecimento da moderna história de Hollywood. O choque de linguagens – música, cinema, videoclipe, para não falar da prosódia da negritude das ruas. Dos nove indicados deste ano, três me interessam particularmente. Entre eles não está o Spotlight – Segredos Revelados, que se prevalecer a lógica, leva o prêmio principal. Nos últimos oito ou nove anos, o filme que leva o prêmio do Sindicato dos Produtores leva também o Oscar principal. Spotlight ganhou o prêmio dos produtores. Logo… Quero falar de um filme de que não gosto, Perdido em Marte, de Ridley Scott, de outro que gosto, mas o entusiasmo diminuiu depois de rever, em Paris, o Fúria Selvagem, e estou falando de O Regresso, de Alejandro González-Iñárritu, e de outro do qual gosto muito, Mad Max – Estrada da Fúria, de George Miller. Voltamos à última (à nova?) fronteira. Matt Damon inicia uma plantação em Marte. O grizly man de Leonardo DiCaprio é testado nos limites da natureza humana e, numa cena, estripa um animal para se alojar dentro dele, abrigando-se da natureza hostil. É a cena que realmente faz a diferença em O Regresso, assim como em Fúria Selvagem/Man in the Wilderness, de Richard C. Sarafian, há aquela em que Richard Harris vê a índia parir (em pé) e cai a ficha de que a vingança é um sentimento que não soma e ele tem mais é de voltar para casa, para o filho. Em Estrada da Fúria, Mad Max vira coadjuvante no próprio filme, que celebra a heroína feminista, a Furiosa de Charlize Theron e ela nem foi indicada para melhor atriz). Conceitualmente, ideologicamente, artisticamente, são os filmes que apontam para alguma coisa (o futuro?), mas dá para entender, numa época de crise do impresso, a defesa do jornalismo investigativo de Tom McCarthy em Spotlight. Mesmo gostando do Iñárritu, acho o final espiritualista de O Regresso decepcionante – Rafael Abreu, que faz o Guia do Estado, diz que é a prova de que o mexicano é lazarento (mas ele também gosta do filme). O crítico do Time diz uma coisa interessante. Acusa O Regresso de faux grandeur (e considera o filme uma operação calculada). Comparativamente, acha Spotlight um filme mais sutilmente ressonante, em termos de realidade atual, vendo na guerra dos repórteres cavadores de notícias a contextualização da urgente melancolia que aflige o jornalismo impresso numa época em que o online ganha espaço. Estou pensando em rever Spotlight hoje para ver se o filme cresce na disputa. Gostei sem empolgação, mas daria para Rachel McAdams o prêmio de coadjuvante que Kate Winslet leva jeito de ganhar (por Steve Jobs). Não creio que Mad Max vá ganhar, Spike Lee está fora. Neste Oscar, torcer, mas torcer mesmo, acho que só pelo Leonardo DiCaprio. A última vez que torci por ele para melhor ator foi em Diamante de Sangue, e ele perdeu. Desta vez, recuso-me a formular hipóteses. Tem de ser e vai ser ‘Leo’. Se der outro, a contragosto vou ter de tentar justificar, depois, porque Michael Fassbender (Steve Jobs) ou Bryan Cranston (Trumbo) ganharam. Qualquer outro seria um crime.