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Animais noturnos (2?)

Luiz Carlos Merten

03 de novembro de 2016 | 09h29

Com tanta Mostra nem tenho conseguido dar conta dos lançamentos. Tenho falado de alguns, e esta semana até que bastante – Dr. Estranho, na edição de quarta do Caderno 2; os brasileiros Cinema Novo, de Eryk Rocha, e Curumim, de Marcos Dutra, na de hoje, quinta. Mas não me animei a escrever sobre A Garota no Trem, que Tate Taylor adaptou do best seller de Paula Hawkings. Tampouco li o livro, que me foi enviado pela editora. Gosto muito de Emily Blunt, mas desta vez não deu. É verdade que certos acontecimentos podem ter influenciado minha apreciação do filme. Arrastei Dib Carneiro para ver A Garota no domingo à noite. Atrasei-me no jornal e cheguei em cima da hora. Dib me disse que a sala estava lotada. Entramos e não havia ninguém. Vi aquele programa da Netflix com o entendido de soluções urbanas, e nada do público. De repente, começou a avalanche. Entravam aos montes, e carregando toneladas de pipoca e refrigerante. Nunca vi gente tão barulhenta para comer nem tão conversadeira numa sala de cinema. O casal do lado parecia de porcos, escarfunchando no pacote e grunhindo, com a boca cheia. Jesus! Foi o ó. Se aquilo é a frequência média de domingo, na faixa das 21 h, no Cinemark do Eldorado, é um salve-se quem puder. Eu, fora. E veio o filme. Emily, bêbada, pega todo dia o trem e passa em frente à casa do ex, que se casou de novo e a mulher tem um bebê. Para aumentar sua frustração, duas ou três casas para lá, na mesma rua, tem uma deusa que se pega com e dá gostoso para um cara, presumivelmente, o marido. Pobre Emily! Por que elas fodem, perdão, podem e nossa heroína não? Uma serpente introduz-se no paraíso desenhado por Emily da janela do trem. Ocorre um assassinato e ela desce do trem para investigar. O ex-marido tenta mantê-la longe da atual etc e tal. Não demora muito e todo mundo vira suspeito do crime. Todo mundo, Emily à frente, menos o criminoso, que só é revelado no final. Como leitor de Agatha Christie e Conan Doyle, odeio whodunit no cinema. Quem matou? Essa coisa de distribuir pistas falsas. Em alguns de seus maiores filmes, Alfred Hitchcock revelava de cara quem era o assassino e nem por isso deixava de criar um suspense infernal. Há algo de intrinsicamente interessante em A Garota no Trem. O próprio trem, que Hitchcock considerava um forte símbolo sexual – mas não tem nenhum túnel para ele entrar, sorry -, e o mundo que Emily vê da janela, uma idealização do mundo real e isso metaforiza o cinema. No final, é o sexo que f… com a vida. Essa questão do sexo já estava no longa anterior do diretor Tate Taylor, Histórias Cruzadas, que podia ter seus defeitos, mas era melhor. Curioso, o nome desse cara. Tatolly John, Tate. É tão estranho (o nome). Se pelo menos ele o honrasse, fazendo filmes menos óbvios. A Garota no Trem tem mulheres lindas (e atrizes talentosas) e caras garanhões, que nem são, necessariamente, (bons) atores – exceto o Edgar Ramirez, que foi o Carlos de Olivier Assayas. É tudo muito elegante, mas fake como aquele mundo que Tom Ford desenha (e subverte) em Animais Noturnos. Não é que eu esperasse muita coisa de A Garota no Trem, mas o filme me decepcionou. Ruinzinho…