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Angels in América e a necessidade de não f… com a mágica

Luiz Carlos Merten

12 de maio de 2019 | 12h24

Fui ver ontem Angels in America no rebatizado Teatro Antunes Filho, do Sesc Vila Mariana. Tinha a possibilidade de ver a montagem do díptico de Tony Kushner pelo Grupo Armazém em duas partes – sexta e domingo -, mas preferi arriscar vendo a peça, ou as peças de uma só vez, com intervalo, no sábado. Meu joelho aguentou, obrigado. Angels in América ganhou o Tony, o Pulitzer e não sei mais quantos prêmios. O texto relaciona a pandemia da aids em Nova York, nos anos 1980, com a ascensão e o desenvolvimento das políticas conservadoras do então presidente Ronald Reagan. Amparado pore grupos conservadores e religiosos do Centro-Oeste, Reagan ignorou quanto pôde a aids, aceitando, pela omissão, que fosse considerada punição divina contra grupos de devassos, como seriam os homossexuais. E olhem que Reagan e a mulher,Nancy, vinham de Hollywood, onde a homossexualidade sempre foi aceita, desde que as pessoas a mantivessem secreta. Estou lendo a biografia de Rock Hudson – All That Heaven Allows – e foi o momento em que ele se assumiu como gay e soropositivo que forçou a ‘América’ – e a Casa Branca – a encararem o problemão. Se podia atingir a rocha Hudson, então não era coisa de minorias, mas estava atingindo a própria representação do macho norte-americano. No programa, o diretor Paulo de Morais identifica no texto de Kushner a intersecção de duas formas de construção narrativa em teatro. A narrativa fantástica, o sonho, a magia, os anjos, e a construção refinada dos personagens trágicos que refletem os acontecimentos reais do mundo devastado pela desordem. A primeira parte, O Milênio Se Aproxima, constrói a dramaturgia por meio de personagens confrontados com o horror da realidade – a pandemia. Prior, o jovem gay, e soropositivo, que o anjo quer transformar em profeta dos novos tempos, a mórmon Harper, que busca alternativas para a rejeição de seu corpo pelo marido gay enrustido e o advogado ultraconservador Roy Cohn, perseguido pelo fantasma de Ethel Barrymore, a quem garantiu a condenação a execução num processo sobre o qual até hoje persistem dúvidas quanto à validade das evidências. A peça abre-se com o rabino fazendo o elogio de uma imigrante judia que fez a grande travessia da Lituânia para o Bronx (ou Brooklyn?). E ele diz, não sem pesar, que acabaram-se as grandes viagens, ou assim parecia há 30 anos. O flagelo recomeçou com as viagens – a tragédia – dos refugiados. Em Perestroika, a segunda parte, a vitória do neoliberalismo coincide com a ruptura do comunismo, precipitada pelas políticas de Gorbachev, e nesse sentido o recente documentário de Werner Herzog no É Tudo Verdade soma ao quadro histórico traçado em Angels in América. Joe, o advogado que se reprime, descansa no colo de Roy e pede para fazer uma confissão. Roy retruca – ‘Não fode com a mágica.’ É o tema da peça, ou da montagem. O embate da magia do teatro – existem ou não anjos na América? – com a realidade. Havia, no final, uma esperança de que a pandemia pudesse criar uma nova solidariedade planetária, mas isso não ocorreu. O triunfo do neoconservadorismo (neo?) consolidou o populismo de fenômenos como Trump, nos EUA, e Bolsonaro, no Brasil. E aí faz todo sentido montar Angels in America, e assistir à montagem. O Armazém pode exumar os EUA de 30 anos atrás, mas o foco está no aqui e agora, nessa trágica proximidade da realidade brasileira. O que se discute – vida e morte, preconceito e homofobia, religião e política, afeto e rejeição – infelizmente tornou-se atemporal. Confesso que gostei mais do Milênio que de Perestroika, embora a segunda metade da segunda peça retome o fôlego da primeira, em termos de vigor da mise-en-scène e da interpretação. Gostei da plasticidade daquele céu sobre Nova York, uma bela invenção cênica. Gostei do derradeiro anjo, que carrega ecos de Asas do Desejo, o filme cultuado de Wim Wenders. Toda a relação de Roy com o fantasma de Ethel e com Belize, o enfermeiro negro, gay e ex-drag queen, converge para a operação fúnebre judaica, seguida de um fdp que me deu o que pensar sobre a tolerância nas trincheiras em que nos encontramos. Não é só uma alegoria sobre os trágicos anos 1980. É uma ferramenta para se investigar a bipolaridade do mundo atual. O curioso é que, depois dessa viagem macro, fiquei com vontade de rever a micro – que Dib Carneiro adaptou do livro de Valéria Pollini. Depois de Angels in América, algo como 120 Batimentos por Minuto no palco. A era da aids ainda nos assombra.