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Angels in América, Depois Daquela Viagem e os tempos primitivos da aids

Luiz Carlos Merten

03 de maio de 2019 | 14h35

Queria escrever sobre o Entardecer, de Laszlo Nemes, mas não é fácil abordar o novo filme do diretor de O Filho de Saul. Vi-o ontem à tarde, às 18h30, no Itaú Augusta, uma plateia reduzida, meia dúzia de gatos pingados, incluindo o Jonas, filho do Leon Cakoff e Renata Almeida. Jonas adorou, talvez até mais do que eu, mas não é por isso que Entardecer vai ter de esperar. Vejo, no Guia, que está estreando uma nova montagem de Depois Daquela Viagem, a peça de Dib Carneiro adaptada do livro autobiográfico de Valéria Polizzi em que ela conta como contraiu o viris da aids e precisou aprender a conviver com a condição de soropositiva. E vejo que Depois Daquela Viagem retorna (no Teatro Viradalata, Rua Apinajés) com a peça mais famosa a abordar o tema, Angels in América, texto de Tony Kushner que venceu o Pulitzer e o Tony. Com seis horas de duração, Anjos poderá ser vista em duas partes (sexta e domingo) ou então num só dia, sábado, no Sesc Vila Mariana. O espetáculo divide-se em duas partes, O Milênio Se Aproxima e Perestroika. Passa-se na Nova York dos anos 1980, quando a aids provocava discriminação e preconceito, e era chamada na mídia de câncer gay. As vidas de diversos personagens sofrem um abalo. Será interessante revisar a visão um tanto macro de Tony Kushner e a micro, se se pode dizer assim, de Dib Carneiro, baseada no caso particular de Valéria e que a transformou, pela resistência, pela tenacidade, num símbolo. Não sei se Valéria gostaria de ser vista assim, se se incomoda, mas ela contraiu o vírus aos 16 anos, está com 48, e viva, e ativa, prova de que os tratamentos funcionam. Após as peças de Kushner e Dib Carneiro, com diferentes focos de contaminação – e a primeira pela primeira vez em montagem integral no Brasil -, surgiram o filme de Robin Campillo, 120 Batimentos por Minuto, e o de Gustavo Vinagre e Rodrigo Carneiro, A Rosa Azul de Novalis. Ou seja, já existe um outro olhar – olhares. O texto do Dib exige um elenco jovem. Espero que o atual seja talentoso. O crítico de cinema vai ter de voltar ao teatro para ver essas peças.