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Amor de Mãe

Luiz Carlos Merten

19 de março de 2020 | 20h21

Tenho visto as novelas da Globo. Nada como o isolamento social. Anos atrás, era muito jovem, garoto, li o romance da Sra. Leandro Dupré, mas não me lembro muita coisa de Éramos Seis, exceto que a mãe terminava sozinha. Todo dia me emociono ao ver os nomes de Sílvio de Abreu e Rubens Ewald Filho, que assinaram a primeira versão para TV, que continua servindo de guia para a atual. Amor de Mãe, Dona Lola, a sempre impecável Glória Pires. No capítulo de hoje, o filho que tem ambições de ser capitalista pressionou a mãe a vender a casa para aplicar num negócio. Egoísta, incapaz de ver o mundo além do próprio umbigo, ele cobra sacrifício da mãe, e diz que ela deve isso a ele. Não pude deixar de pensar na Stella Dallas do rei Vidor. Daniel Filho sempre considerou a personagem de Barbara Stanwyck – o filme chama-se Mãe Redentora, no Brasil – uma matriz do melodrama. Stella, a mãe rejeitada pela origem proletária, sacrifica-se pela filha, renuncia à sua prerrogativa maternal e, no desfecho, assiste anonimamente, da rua e através da janela da mansão, ao casamento da garota com um homem rico. Daniel Filho talvez se surpreenda, mas existem leituras feministas que veem esse final de outra maneira e celebram na forma como Barbara avança decidida para a câmera, sorrindo, ‘algo mais que uma mãe’. Seria interessante comparar Dona Lola com a Lurdes de Regina Casé na novela de Manuela Dias, Amor de Mãe. Quando falei com José Luiz Villamarim e ele abordou o que seria a ousadia estética da novela – seus planos sequência -, ele também disse que contava com o apelo do melodrama para prender o público. Não sei, não falamos sobre isso, até que ponto já estava previsto que a novela teria um break, ou se a solução foi decorrência da decisão da Globo de suspender as gravações. Havia visto os capítulos iniciais, e a Thelma de Adriana Esteves era uma mulher frágil, enfermiça, tiranizada pelo irmão. Agora que descobriu que seu filho é o filho que Lurdes procura com tanta intensidade, Thelma está fazendo de tudo para afastar Chay Suede de Lurdes, o que inclui destruir o casamento do rapaz. Em apenas três capítulos – estou vendo desde segunda -, Thelma virou um monstro de egoísmo, capaz das maiores atrocidades. A Gene Tierney de Amar Foi Minha Ruína, o noir de John M. Stahl, era aprendiz perto dela. Leio que Thelma terá uma morte brutal e que esse será o gancho para segurar o público para a segunda temporada – o retorno – de Amor de Mãe. Manuela, a autora, é porreta, porque não deve ter telespectador que não queira ver essa mulher sumir do mapa. O curioso é que, no Vale a Pena Ver de Novo, Adriana está barbarizando como a Carminha de Avenida Brasil, e assim pode-se comparar, com, diferença de horas, as duas vilãs – a mesma? Muito interessante. Embora a vida não seja novela, todo mundo deve ter a experiência de alguém que, de repente, tira a máscara e revela uma outra, a verdadeira?, face. Manuela Dias está dando aula de como se constrói isso na dramaturgia.

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