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Amor bandido

Luiz Carlos Merten

22 de agosto de 2013 | 09h51

Fui rever ontem Mud e confesso que gostei ainda mais do filme de Jeff Nichols. Como James Gray, Nichols não deixa de ser uma ‘invenção’ da crítica francesa, que leva os dois muito a sério. Gosto demais de James Gray, mas me decepcionei com o novo filme dele que vi em Cannes, em maio – The Immigrants, apesar de algumas cenas boas. Nichols consegue ser ainda menos ‘unânime’, e não sei se muita gente viu O Abrigo, The Shelter, que saiu só em DVD no Brasil. Michael Shannon está em ambos – um papel imenso em The Shelter, outro pequeno em Mud. Shannon, o Zod de Homem, de Aço,  virou cult e é o único ator que merece uma entrevista grande na edição de julho/agosto de Cahiers du Cinema, dedicada ao ‘amor dos atores’ (é a chamada de capa). Na verdade,. há também uma entrevista com o grande Tatsuya Nakadai, mas ela não faz parte do corpo da edição, situando-se num apêndice e pegando carona na homenagem que o ator japonês ganhou em Paris, no começo de junho (e como eu lamento não ter ficado mais uns dias, depois de Cannes, para assistir à master class que ele deu). De volta a Mud, o filme ganhou no Brasil um subtítulo – e Amor Bandido era como se chamava um antigo filme de Bruno Barreto, lembram-se? Mud é um filme de difícil classificação. Começa como aventura – dois garotos descobrem um barco no alto de uma árvore, numa ilha (meio) distante. Com o barco, somos introduzidos a Mud, Matthew McConaughey, que finalmente virou um ator (e dá outra interpretação forte). O cara é um fugitivo. Matou um sujeito, o filho de um poderoso, e é caçado por isso. Mud espera a mulher amada, para fugir com ela – e Reese Whiterspoon nunca esteve melhor na vida. Ganhou aquele Oscar de merda, que mereceria pelo papel aqui. Ela vem ao encontro de Mud, mas não está certa de querer fugir com ele. Os pais do garoto protagonista também estão em crise. O pai lhe diz para desconfiar das mulheres, e o moleque tem a própria experiência malsucedida com uma garota para quem ele não passa de um guri. Mud diz que não é nada disso e restaura nele o amor por ‘elas’. É um filme de um romantismo visceral. E é violento. Aciona fantasmas – Sam Shepard,. um ex-agente da CIA; Joe Dan Baker como o milionário pai do homem que McConaughey matou (e que chega com seus sicários). O filme não tem exatamente um happy end, mas contempla um rito de passagem para todos os homens da trama. Meu amigo Dib Carneiro, quando lhe disse que o hotel em que fiquei em Nova York – o Standard – é o mesmo em que Michael Fassbender come a prostituta de janela aberta em Shame, me disse que Inácio Araújo desceu a lenha no belo filme de Steve McQueen que passou no outro dia na TV. Achou-o ‘superficial’. Sei bem o que é profundo para ele. Bem, um interessante exemplo de filme profundo, que comporta múltiplas leituras, é o Mud. Estreia na semana que bem. Fiquem atentos.