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Amigos (não necessariamente o filme)

Luiz Carlos Merten

15 de agosto de 2013 | 10h56

GRAMADO – O bom e o mau dos festivais é que os filmes vão se superpondo e decantando. Um ajuda a esclarecer o outro e, no final, as preferências mudam o rumo. Havia gostado de Revelando Sebastião Salgado, gosto do filme, mas ver um filme imperfeito como o de minha – ouso chama-la assim – amiga, Maria de Medeiros, o também documentário Repare Bem, relativizou o entusiasmo. Da mesma forma, ao sair do cinema, depois de assistir a A Bruta Flor do Querer, teria dito que não gostei do filme de Andradina Azevedo e Dida Andrade, mas não era verdade, porque adorei a cena inicial, dos garotos discutindo gêneros no carro. Gostei demais dos dois no debate, e o filme foi ficando comigo, crescendo e agora eu até acho que gosto mais de A Bruta Flor pelos defeitos que pelas qualidades. E o filme é autêntico, visceral, sim. Expressa o estar e o mal-estar de uma geração, como Os Amigos, de Lina Chamie, expressa os mesmos sentimentos e sensações de outra geração. No jantar, ontem, perguntei, sem justificativa alguma, gostaram do filme da Lina, sim ou não? A maioria dos colegas à mesa disse sim. Eu pensei comigo – não. Lina fez um discurso muito bonito e bem intencionado sobre o humanismo do filme, a ode à amizade – não existe amor sem amizade -, mas eu confesso que não me interessei muito pelos adultos nem pelas crianças, com seu espetáculo sobre o eterno retorno de Ulisses. Gostei dos animais, que me interessaram muito mais. As dores dos humanos foram tão previsíveis, nada da rejeição da garota do sebo que lança o Dida, em A Bruta Flor do Querer, naquela outra viagem nas drogas, que não deixa de ser uma odisseia interior. O problema do homem moderno é que ele perdeu o sentimento épico das coisas, remember Jean-Luc Godard em sua obra-prima, O Desprezo. E o cachorrinho de O Artista foi parar no cinemas de Lina Chamie. Adorei-o, como adorei a trilha, com aqueles excertos de Sans-Saenz, O Carnaval dos Animais. Para quem não sabe, é a música que acompanha a vinheta do Festival de Cannes. Pensei comigo – se Os Amigos fosse um pouco melhor, bem poderia ir ao maior festival do mundo. Não gostei muito, embora Lina tenha um verdadeiro olhar de diretora e crie cenas lindas, às quais a música dá uma dimensão majestosa. Ninguém usa os clássicos como ela no cinema brasileiro, mas nessa coisa de amigos, de gerações, me senti muito mais próximo dos personagens de O Primeiro Dia de Um Ano Qualquer, que vai passar hoje à noite e me parece o melhor Domingos de Oliveira em anos. Mas o Domingos não mudou. Mudei eu, em relação a ele. Os filmes estão vivos, são vivos. Quem disse que nossos sentimentos em relação a eles não podem mudar? Existem filmes que são os meus Everests. Rocco, Rocco, Rocco e Hiroshima Meu Amor, e Rastros de Ódio, e Morangos Silvestres, algum outro que não vou citar agora. O restante é tudo intercambiável., não descartável. Adorei o documentário de Fabiano de Souza sobre seu pai, o crítico Enéas de Souza, meu companheiro de geração (mais ou menos), em Porto. Enéas já escrevia, já era um nome, quando comecei. Em fevereiro, pai e filho foram a Paris e fizeram o recorrido dos cinémas de arte et essai. Viam os filmes, davam uma piratadinha, filmando rapidamente imagens na tela, e depois discutiam. Teria sido muito interessante encontrar o Enéas em Paris. Eu estava lá, na mesma época, e revi, no Action Christine, a alguns filmes da retrospectiva de Fuller e Peckinpah. Enéas diz coisas belas sobre o cinema, a força e a perenidade do cinema como instrumento de investigação e compreensão do mundo. Fala de gêneros, com outra compreensão, mas o que ele falas sobre John Cassavetes, sobre Howard Hawks, não difere muito de certas questões levantadas em A Bruta Flor do Querer. Enéas lança perguntas – Eisenstein ou Kubrick? Kubrick, sem hesitação. Baixa a ripa em Holy Motors e depois diz que acha o filme de Léos Carax mais curioso como ‘sintoma’. Eu teria de rever Os Filmes Estão Vivos, mas me pergunto se o que ele diz de Carax não se aplica a Django, do segundo Sergio, o Corbucci, que ele também reviu e analisa? Eu cheguei ao segundo e ao terceiro Sergios, o Sollima, antes que ao segundo. E gostava deles como sintomas de uma mitificação que, nos anos 1960, não era mais possível e até os maiores, John Ford, Howard Hawks, estavam filmando a degradação dos heróis. Só Raoul Walsh permanecia, como impávido colosso. Os heróis de Ford e Hawks envelheciam com eles. O último herói de Walsh foi um jovem, o intrépido Matt Hazard de Um Clarim ao Longe, desistindo de Diane McBain para ficar com a viúva Suzanne Pleshette, como Errol Flynn fazia tudo aquilo para  chegar àquela despedida de Olivia De Havilland – Viver ao seu lado, madame, foi meu privilégio. O Intrépido General Custer! O melhor filme de transição – sobre jovens – que conheço. Não existe nada mais romântico no cinema, para mim, e num western, ainda por cima. Choro só de pensar. Uma garota, no debate sobre A Bruta Flor do Querer, cobrou correção dos diretores. Eles estariam objetalizando a mulher. Será? Outra amiga irritou-se com a ideia de que o Dida chega a declarar que virou diretor porque achava que seria mais fácil pegar mulher, as atrizes. Eu achei aquilo lindo. Truffautiano, pois François também ia pegando suas atrizes e nunca saberemos se teria permanecido com Fanny Ardant, ou se era uma fase, e ele morreu enquanto se relacionava com ela. Pensei comigo – o Truffaut ia amar esses caras. Parecem cafajestes, são dois românticos. E A Bruta Flor já ganhou seu compartimento no meu imaginário.

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