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Amigo de fé, meu irmão, camarada. Amigo de tantas jornadas…

Luiz Carlos Merten

19 de janeiro de 2019 | 00h55

Paula Toller gosta de se definir como loba em pele de cordeiro. Conheço essa história. Sem nunca ter ligado para o Kid Abelha, sou o maior fã – sempre fui – de sua vocalista. Que maneira esquisita de começar um post. Paula é casada há mais de 30 anos com Lui Farias e ele vai ser o protagonista do post. Fui ver hoje – ontem, já passou da meia-noite – Minha Fama de Mau, a cinebiografia de Erasmo Carlos, por Lui. O filho de Roberto Farias, que fez a trilogia de Roberto Carlos, resgata agora o amigo, o parceiro. Tirando Os Porralokinhas, que já deve ter uns 15 anos, ou quase, Lui não dirigia para cinema desde os anos 1980. Com Licença, Eu Vou à Luta e Lili, a Estrela do Crime. Gostei de Minha Fama de Mau, e agora esclareço. Já escrevi aqui que, se há uma coisa que o cinema brasileiro aprendeu a fazer, é biografia. Algumas, depois de rever duas ou três vezes, terminam por me decepcionar e, hoje, para ser 100% sincero, eu me pergunto como pude gostar tanto de João, o Maestro. Até sei – fiquei siderado pela maneira como Mauro Lima dirige sua mulher, Alinne Moraes, e Rodrigo Pandolfo, e as cenas do maestro com as p…, no bordel de Montevidéo, possuem um encanto todo especial para mim. Minha Fama de Mau! Já havia ficado chapado com o próprio Erasmo em Paraíso Perdido, de Monique Gardenberg, mas confesso que não sabia muita coisa sobre a trajetória do tremendão. O filme começa meio punk, os porralokas, com ele e amigos, incluindo um certo Tião/Tim Maia, que roubam cobre para ganhar uns trocados. De pequenos delinquentes, poderiam ter virado criminosos rematados. Salvou-o(s) a música. Embora o sucesso em questão tenha sido de Wilson Simonal – pra ter fon-fon, trabalhei, trabalhei -, o filme mostra como o garoto da Tijuca deu duro no seu começo até cumprir a promessa feita à mãe, de que ia lhe der um apartamento com vista para o mar. Sou de um tempo em que Isabela Garcia era garota, depois jovem, e agora ela é a mãe do Erasmo! Uma mãe de melodrama, que sofre, mas é redentora, quando o filho vai procurar a cassete que jogou no lixo. Chay Suede não tem nada a ver com Erasmo, estou falando fisicamente, mas é genial no papel, cantando (afinado) e falando diretamente com a gente, o público. Tão bom, ou até melhor que ele é Gabriel Leone, que também não se parece com Roberto Carlos, mas está perfeito. E ainda tem a Malu Rodrigues como Wandeca. Chorei em pelo menos duas cenas, mas isso se deve talvez ao meu momento de vida mais que ao filme. Roberto segue adiante, Erasmo e Wanderléa tentam manter o programa Jovem Guarda, mas não dá certo. Cantam – em clima de tudo acabou – Devolva-me. “Deixe-me sozinho/Porque assim eu viverei em paz/Quero que sejas bem feliz junto com teu novo rapaz”. Acostumei-me tanto com a versão de Adriana Calcanhoto que viajei no tempo, e nas lembranças, ao reencontrar, no YouTube, as mais antigas de Erasmo e Wanderléa, Leno e Lilian e até a do rei Roberto. Erasmo, que chegou ao topo, cai vertiginosamente. Reencontra Roberto, que lhe estende a mão – “Amigo de fé, meu irmão camarada/Amigo de tantas jornadas…” O sentido da verdadeira amizade, e o retrato de Devolva-me adquire um significado afetivo muito grande nessa outra cena. Quase enfartei. Suzana Uchôa Itiberê, que compartilhou a sessão comigo, confessou sua emoção no final. E ainda tem todas as mulheres de Erasmo, ou quase, interpretadas pela mesma atriz, Bianca Comparato. Lara, Samara, Clara, Nara. Todas as Biancas. Erasmo, o f…, o que não podia ver rabo de saia. Suas abordagens – divertidas – hoje o condenariam ao inferno, por assédio. ‘Vamos fazer nenenzinho?’ Outros tempos… Minha Fama de Mau estreia em 14 de fevereiro. Estarei, espero!, em Berlim, vendo Marighella, o que será outro compartimento. O ano está pintando bom, em termos de público, para o cinema brasileiro. Minha Vida em Marte, com Paulo Gustavo e Mônica Martelli, já bateu os 3 milhões de espectadores. Espero, sinceramente, que Minha Fama de Mau siga essa trilha.