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Amar é não ter que pedir perdão

Luiz Carlos Merten

26 de março de 2020 | 11h18

Prepare-se, porque o post será longo. Devia fazer 50 anos que não via Love Story. Vi o filme de Arthur Hiller na estreia, e depois nunca mais. Segui as carreiras de Ryan O’Neal e Ali MacGraw, os grandes filmes que ambos fizeram depois. Ele, com Peter Bogdanovich e Stanley Kubrick. Ela, com Sam Peckinpah. Confesso que tenho uma admiração fria por Barry Lindon. Entendo as intenções, a importância, mas talvez seja o filme do autor que menos me empolga. Em compensação, sou louco por Os Implacáveis/The Getaway, e a cena de Ali e Steve McQueen no caminhão de lixo sempre me pareceu uma das mais belas filmadas por Peckinpah. McQueen e Ali foram casados de 1973 a 78. Após o divórcio, que eu saiba, ela nunca se casou de novo. Ele, sim, mas a união durou meses, em 1980, no mesmo ano em que morreu. Estava zapeando ontem na TV quando entraram as imagens de História de Amor. Minto, o som chegou antes. A trilha de Francis Lai, lararará… Em 1970, eu tinha a mesma idade de Ollie e Jen. Como milhões de espectadores em todo o mundo – Love Story foi um êxito planetário -, acompanhei as dificuldades do jovem casal. Ollie é filho de milionário, cursa a universidade Harvard. Apaixona-se pela pobretona Jen, seu pai é contra, ele corta os laços familiares. O casal come o pão que o diabo amassou, ela desiste de Paris, da música – seus sonhos – e vira professora, sustentando o marido para que Ollie se forme em direito. Quando as coisas melhoram para o casal, ela fica doente e morre. A Paramount, sob a presidência de Robert Evans, foi o único estúdio de Hollywood que se interessou pelo roteiro de Erich Segal. Todos os demais o rejeitaram por ser um melodrama contrário ao espírito da época. Pós Maio de 68, Woodstock, o sonho hippie. Sob a condução de Evans, a Paramount produziu Love Story para ser um estouro de bilheteria. O roteiro virou livro, best seller, o filme foi o primeiro a superar a bilheteria histórica de …E o Vento Levou. A crítica inteira odiou, mas ontem, em tempos de isolamento social, sozinho quase todo o tempo – Carlos, o físio, tem vindo duas ou três vezes por semana -, gostei de rever Love Story. É um filme sobre pais e filhos. Ollie e o pai, Jen e o pai. Não existe diálogo na família rica – Ollie chama o pai, cerimoniosamente, de senhor. Para Jen, seu pai é ‘Phil’. Ela chama o namorado de riquinho. Quando falam em ter filhos, Oliver Barrett IV diz que o dele não será OB V. Poderá até ser Bozo. Por mais que o filme siga códigos de gênero, a questão social – e a geracional, indesligáveis em 1970 – está/estão presente(s). Gostei demais de duas cenas. Ollie e Jen brigam (por causa do pai dele), ela sai de casa transtornada, ele a procura, não acha. Cai a noite. Ollie fica desesperado. Volta para casa e Jen está do lado de fora – esqueceu a chave. Ele chora, pede perdão. Ela diz a frase icônica – “Amar é não precisar dizer sinto muito.” Antes dessa, outra cena mostra Jen ao piano, numa apresentação pública. Compenetrada, de óculos, tocando Bach. O olhar de Ollie é dos mais ternos que já vi num filme. Aquilo só pode ser amor. O filme sobre ‘família’ é também sobre perda e superação. Digamos que, ontem, eu podia estar fragilizado – quem não? – e isso talvez tenha perturbado meu juízo crítico, mas na primeira vez não tinha me dado conta de uma coisa, ou esqueci. O diretor Hiller filma muitas cenas na rua. A câmera segue Ollie, Jen, ou os dois na calçada, e você vê que, do outro lado há uma multidão isolada, olhando. Ollie atravessa a rua e as pessoas olham para ele. Temos, ao mesmo tempo, um foco documentário e a quebra da quarta parede, a metalinguagem invadindo a ficção. Achei irresistível a juventude do casal de protagonistas. Ali é o que Julieta deve ter sido. Apaixonada, pura. Ali era casada com Robert Evans. O homem que fez uma revolução em Hollywood estava apaixonado? O filme foi seu presente para a mulher? Agora pela manhã, antes de fazer o post, fiz uma pesquisa sobre Ali e O’Neal. No leito de morte, Jen diz para Ollie – ‘Screw Paris, foda-se Paris, o importante somos nós, aqui e agora.’ No filme, essa cena completa outra, anterior, em que ela dispensa Deus e a igreja e diz que não consegue imaginar um mundo melhor que o dela – Bach, Mozart, Ollie. E acrescenta – os Beatles. Na pesquisa, encontrei um vídeo recente de Ali em Paris. Em frente à Chanel, chegando para ou saindo de um desfile de moda. Nunca vi uma idosa que tenha permanecido tão… Qual é o adjetivo? Bela? A silhueta não mudou. O sorriso é o mesmo. O olhar, com algumas rugas, permanece curioso diante da vida. A pesquisa sobre Ryan me entristeceu. Como Robert Redford, ele tinha a pele muito clara e envelheceu mal. Mas não foi por isso. O’Neal foi pugilista, quando jovem. Tinha um histórico de violência. Encontrei uma matéria que gostaria que fosse fake news, mas tudo indica que não, em que ele é listado, talvez, como o pior pai de Hollywood. Teria induzido Tatum ao vício da cocaína, disparou contra um filho. Outro, drogado, entra e sai de cadeias. Ryan O’Neal foi tantas vezes indicado para a Framboesa de Ouro (pior ator) que chegou a concorrer a pior ator da década de 1980. E eu que me emocionei com o olhar dele para Ali, na cena do concerto. Como eu sempre digo, sou um cara fácil de enganar.

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