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Amanhã, a Mostra

Luiz Carlos Merten

21 de outubro de 2020 | 09h25

Dez dias sem postar. Dez dias intensos em que emendei o É Tudo Verdade com a Mostra vendo de dois a três filmes por dia, mais o GP do cinema brasileiro, os textos diários para o Estado e os links para lançamentos de streaming e séries de TV. Sempre fui refratário a ver os filmes no notebook e agora estou tendo de fazer isso, mas faço por obrigação, sem usufruir o prazer que a ida ao cinema sempre me proporcionou. Estou tendo ideias muito estranhas. Em Berlim, em fevereiro, com a quantidade de filmes brasileiros e mais a competição, a retrospectiva de King Vidor, deixei o de ver o Luz nos Trópicos, da Paula Gaitán. Quatro horas, mais o deslocamento. Estaria deixando de ver dois ou mais filmes. Em fevereiro, apesar de ouvir falar no virus que assolava a China, não podia imaginar que a pandemia iria desacelerar o Brasil, o mundo. Contava em ver o filme da Paula aqui. Luz nos Trópicos venceu o Olhar do Cinema. Nunca fui a Curitiba, no festival de Aly Muritiba, e não seria este ano que iria somar mais programas remotos ao meu já carregado cabedal de filmes. No caso específico de Luz nos Trópicos, mesmo amigos que não gostaram particularmente do filme, na Berlinale, me garantiram que era belíssimo, um experimento estético. Tem gente que não liga psara isso, que trocou a fruição pelo entendimento. Acham que o cinema é uma arte narrativa, que sua função é contar histórias e, se der para ‘entender’, tanto faz que seja visto numa tela grande, num Ipad ou no celular. Estou escrevendo o post na mesa da minha sala. Aqui ao lado tem a garrafa de água, ali na frente a TV mostrando os estragos do temporal pela cidade. Levantei-me, fui lá e desliguei a TV, nem por isso deixo de estar na minha sala, ou poderia ser no escritório, na redação, consciente disso. O que é o cinema? Teóricos como André Bazin nunca precisaram se preocupar com essas questões, que agora nos atingem. Não estou querendo negar o avanço tecnológico. Acompanhei desde a primeira hora as pesquisas de Peter Greenaway, de Lars Von trier, e admiro especialmente o segundo. Cheguei a ir ao Japão para conhecer a câmera de vídeo, uma HD especial, que Greenaway usava nos anos 1990. Continuo sem celular, fora das redes sociais, tentando me resguardar dos algoritmos. Sou do tempo de ler livro no papel, e sem rabiscar. Odeio as anotações que profanam as páginas que, para mim, são sagradas. Leio diversas vezes os mesmos livros, sabendo os enredos, mas esperando ser surpreendido. No cinema, um blockbuster e um filme miúra me merecem a mesma atenção, e quero vê-los na melhor telas, nas melhores condições. Sempre acho que me prender só à trama, sem usufruir a imagem, o som, o clima, é empobrecer a mídia e considerar o cinema um mero derivado da literatura. Ao ler, imagino. No filme, vejo, e quero ver todas as camadas. Sonho com o momento em que tudo isso vá terminar para que possa me despedir dos links e rever os filmes na tela dos cinemas. Vou ver daqui a pouco o Michel Franco que abrirá amanhã a Mostra, na sexta o Christopher Nolan, que já teve cabine ontem. Vida que segue, novo normal. Voltaremos/Voltarei à redação, ou será só home office daqui pra frente? Confesso que sinto falta da redação, como da tela do cinema.

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