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Alvim, Goebbels e a grande tragédia brasileira

Luiz Carlos Merten

17 de janeiro de 2020 | 12h36

Quando escrevi há três dias sobre Chico, e o Essa Gente, citei o Roberto Alvim. Lembrei seu pé na tragédia grega e lamentei profundamente, por ter sido um artista a quem admirei profundamente, que os deuses cruéis tenham por hábito enlouquecer aqueles a quem querem destruir. Ontem, enquanto via A Melhor Juventude e, depois de jantar no Frevinho, enquanto me protegia da chuva naquela marquise, não fazia ideia de que um mundo estava desmoronando. Desde que foi alçado ao posto de secretário Nacional da Cultura, Alvim nunca tinha cessado de surpreender, e preocupar. Foi, insisto, um grande diretor de teatro, ousado e experimentalista. Criou o Club Noir para estudar e montar tragédias gregas. Ofereceu grandes papéis à mulher, Juliana Galdino. Adaptou Chico Buarque para o palco, Leite Derramado, em que Juliana estava poderosa. E, então, de repente, tudo mudou. Alvim passou a servir a um governo que claramente criminaliza a cultura. Fernanda Montenegro virou ‘sórdida’, o grande Chico tornou-se inimigo. Alvim chegou ontem ao limite e foi exonerado. Embora tenha dito que era mera coincidência retórica o fato de haver utilizado uma sentença de Goebbels, o ministro da Propaganda de Hitler, num discurso na quinta-feira à noite, as similaridades foram mais que preocupantes – alarmantes. O PT e a esquerda sempre foram acusados de defender uma cultura alinhada, produzindo obras nacionais populares segundo o conceito gramsciano. Alvim defendeu uma arte brasileira heroica e nacional, dotada de grande capacidade de envolvimento emocional e imperativa, e profundamente vinculada às aspirações urgentes do nosso povo – senão, acrescentou, não será/seria nada. Goebbels dizia a mesma coisa, e só para lembrar acrescentava que o expressionismo, escola artística que se tornara dominante na Alemanha no final do século 19 e início do século 20, possuía ideias positivas que se perderam no experimentalismo. Alvim, em suas montagens de tragédias gregas, sempre bebeu na fonte do expressionismo. O personagem de Leite Derramado parece saído do clássico O Gabinete do Dr. Caligari. Voltou-se contra o próprio passado, renegou suas pesquisas estéticas. Confirmou a máxima da tragédia grega – os deuses enlouquecem primeiro… Na época da ditadura militar, e pegando carona na vitória do Brasil na Copa do Mundo do México, o governo também tentou criar uma agenda heroica e positiva. Brasil, ame-o ou deixe-o. Independência ou Morte, de Carlos Coimbra, não era a obra ufanista em que foi transformado. Dom Pedro saía da moita para declarar a independência sem sequer lavar as mãos, após o desarranjo intestinal. O país que nasceu com as mãos sujas, na m… Coimbra, a quem tive o privilégio de conhecer, e biografar – na Coleção Aplauso -, havia sido visionário, e não sabíamos. Os Inconfidentes, de Joaquim Pedro, e Iracema, Uma Transa Amazônica, de Jorge Bodansky, foram respostas altivas às aspirações dos militares. A todos os que querem destruí-los, a cultura e o cinema brasileiros reagem com força. A direitização não pode chegar ao limite da barbárie nazista. Alvim cavou a própria ruína. Até aliados do governo pediram sua cabeça. Perder o cargo é uma coisa. Perder o respeito de seus pares é muito pior. Essa degradação é uma coisa que me abala muito.

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