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Alumbramentos

Luiz Carlos Merten

13 de agosto de 2013 | 10h43

GRAMADO – Não quero nem reler meu post anterior que deve ter parecido o ó pela quantidade de palavrões, mas acho que seria hipócrita tentar ser elegante ao falar sobre o que pretende fazer do chulo uma arte. Estou mais preocupado porque tenho a impressão de que errei, o que faço bastante, o título do longa de Cláudio Assis (um dos tantos) escrito por Hilton Lacerda. Freud explicaria porque escrevo sempre O Cheiro, e não A Febre do Rato. Ontem, cheguei a voltar ao texto para conferir, e acho que continuei errando. Sorry. Mas quero falar de Revelando Sebastião Salgado, op belo – belíssimo – documentário de Betse de Paula, que vimos ontem. Simples como linguagem, mas bem montado, o filme tem um personagem extraordinário, o Tião, como Betse chama o fotógrafo. Tião não é uma unanimidade, porque muitos o acusam de estetizar a miséria, de se apropriar da imagem alheia etc etc. Eu fico pasmo, mudo, quando vejo as fotos dele de Serra Pelada. Por princípio, sobreponho a palavra à imagem e quando me falam que uma foto vale 10 mil palavras respondo, talvez cinicamente – ah é, me mostra? Mas aquela foto da tensão social em Serra Pelada, do garimpeiro que peita o soldado armado e pega no cano da arma dele é uma das coisas mais extraordinárias que conheço. Não sabia muita coisa sobre Sebastião Salgado, o homem. Agora, tenho a impressão de saber bastante, senão tudo. Mas sempre que olho aquela foto me pergunto pelo garimpeiro. Quem é ele? O que ocorreu com ele? Naquele formigueiro humano, o sujeito tem uma identidade? ‘Tião’ foi economista antes de se tornar (grande) fotógrafo. Mais que o domínio da técnica, o filme expressa a base marxista, econômica do seu pensamento, que embasa o trabalho. Como a economia se faz por ciclos, Tião cria e desenvolve sua arte por blocos conceituais. Êxodos, Gênesis. Em tudo, há sempre a base econômica. Os movimentos migratórios, o (re)aproveitamento dos recursos. Não há nada mais impactante que a sua série de fotos sobre a construção e degradação dos grandes navios, desde a busca pelo material até a construção e o que ele chama de ‘canibalização’, quando as embarcações que deixaram de funcionar são desmontadas por populações que tudo transformam. O bronze usado como metal de base vira artigos domésticos (panelas) e bijuterias para enfeitar as mulheres no Paquistão, na Índia. Fiquei louco por aquelas imagens, que valem – finalmente! -, como a de Serra Pelada, as 10 mil palavras. E o Sebastião é  uma figura. Articulado, charmoso. Vive desde os anos 1960 o que parece uma relação perfeita. A mulher o acompanha, trabalha com ele. E quando dançam, e ele a enlaça, e puxa como se fosse encoxar, e beija, achei aquilo mais belo que a ficção. Sou muito bobo, sei. Há uma propaganda institucional da Petrobrás, que patrocina o festival. A Petrobrás acredita, aquelas coisas. Há uma imagem de um menino cego que lê em braile, que se emenda com a de um garoto no ponto de ônibus, um Billy Elliot, que ouve música pelo fone de ouvido e, indiferente ao mundo ao redor, rodopia sobre o próprio eixo, dançando. Desde sexta-feira, vejo duas ou três vezes essas imagens, todos os dias. E todas as vezes, quando o menino dança, é incontrolável – a lágrima vem. Aqueles segundos valem mais para mim do que a versão musical do Billy Elliot de Stephen Daldry, que vi em São Paulo, antes de viajar. Já que misturar alhos com bugalhos é comigo mesmo, aproveito para dizer. Gosto demais de Vendo ou Alugo, a comédia de Betse de Paula que ganhou no Recife e estreou na sexta. Não foi um bom fim de semana para o cinema no País, com Dia dos Pais, almoço em família, certamente bebida e futebol. Nenhum filme estourou, ou melhor, houve um só estouro, o de Cine Hóllyud, o filme cearense que, lançado com dez cópias no Ceará, fez mais de 22 mil espectadores, 2200 por cópia. Assisti ao trailer num dos dias em que fui rever rever (pagando) Minha Mãe É Uma Peça e o público morria de rir com o faroeste caboclo de Halder Gomes, emendando o riso com o do filme de André Pellenz com Paulo Gustavo, que ainda não esgotou seu ciclo na bilheteria e vai chegar – espero e acredito – aos 5 milhões de espectadores. O filme da Betse fez 55 mil espectadores no fim de semana, mas teve uma média baixa, inferior a 400 espectadores. Precisa reagir para permanecer em cartaz. Hoje e amanhã, com o ingresso mais barato, serão bons dias para isso. Vendo ou Alugo é bom, divertido e expressa de forma inteligente, sem didatismo, a questão social do País. Vejam – e fiquem atentos para Revelando Sebastião Salgado. O filme não foi feito para estrear nos cinemas, mas seria bom demais se estreasse. Revela Tião e confirma Betse, feliz da vida neste ano que é o da sua visibilidade (e maturidade como ‘autora).

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