Altos e baixos
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Altos e baixos

Luiz Carlos Merten

13 de fevereiro de 2014 | 20h56

 

 

BERLIM – Tive hoje um dia muito intenso, que começou com o terceiro e último filme chinês da competição, No Man’s Land. Já que os dois primeiros foram ruins, botava fé de que pelo menos esse fosse bom. Não em enganei. O diretor Ning Hao segue a trilha de Jia Zhang-ke em Um Toque de Pecado, mas de uma formas, digamos, mais espetacular, transformando em comédia do absurdo a violência na China contemporânea. Com toques de Quentin Tarantino e dos irmãos Coen, ele conta a história de advogado que atravessa região deserta em seu carrão. O cara se envolve numa disputa com dois celerados num caminhãozinho e, a partir daí, em cada curva da estrada as coisas só vão piorando. De cara, o protagonista informa – essa é uma histórias, e ele próprio, depois de liberar seu instinto selvagem, tenta reassumir a humanidade. Achei bem interessante, e o filme, como todos os chineses da seleção, difere dos cineasta da quinta e sexta gerações por recorrer ao receituário de gênero. Niang Hao compartilha a visão de Jia, que no ano passado, em Cannes, comparou a China atual ao far-west. A paisagem e a trilha rendem homenagem aos spaghetti westerns. Emendei o filme chinês com nova entrevista com Karim Ainouz e com a diretora da Noruega Margret Olin, por seus episódios em Cathedrals of Culture. O que mais me interessava na conversa com Karim, dessa vez, era saber porque ele filmou o Beaubourg, em Paris, e não algum prédio de arquiteto brasileiro. Como o ponto do filme é a discussão sobre se prédios têm alma, descartei de cara Niemeyer. Genial, grandiosa, narcisista, cabem mil definições à arquitetura dele, mas certamente não humana. Os prédios de Niemeyer não tem alma. Adorei o que retrucou Karim, arquiteto formado e cineasta praticante – ‘Você também acha (que a arquitetura de Niemeyer não tem alma)?’ Adorei, e mais ainda quando disse que chegou a cogitar o nome de Paulo Mendes da Rocha, mas não deu. A norueguesa, como seu episódio – sobre a Ópera de Oslo -, é o máximo, mas tenho de admitir que, além do de Robert Redford, sobre o Salk Institute, tenho pensado cada vez mais na Prisão Halden, do dinamarquês Michael Madsen. Saí das entrevistas e entrei na viagem de Richard Linklater em Boyhood. Foi o filme mais ovacionado de Berlim, até agora. O diretor da série com Ethan Hawke e Julie Delpy – Antes do Amanhecer, do Por do Sol e da Meia-Noite – conta a história de uma família pelo ângulo de um garoto. Os pais se separam e ele oscila entre os dois polos. O filme é bom, muito bom, mas o que faz a sensação de Boyhood é que Linklater filmou com um garoto, parou por dez anos e retomou a filmagem com os mesmos atores – Ethan Hawke, Patricia Arquette e Ellar Coltrane, o menino, agora graduado do College. A gente pode acompanhar o crescimento de atores mirins, mas em geral é através de diversos filmes, e nunca, como aqui, numa só produção. Ainda atarantado, corri para Charlottenstrasse, no Regent Hotel, para confirmar minhas entrevistas com Linklater e Patricia (amanhã). Voltei ao Grand Hyatt, onde fica a sede da imprensa, para entrevistar a diretora argentina Celina Murga e dei um tempo para poder emendar com a coletiva de Ken Loach, que recebeu à noite seu Urso de Ouro de carreira. Meus velhos são sagrados, mas aí já passavam das 5 da tarde daqui e às 7 (da noite) eu queria ver o Sebastiane, de Derek Jarman. Descobri que a sessão de imprensa do Yamada não era às 9 da noite, como tem sido sempre, mas também às 7. Fodeu. Por mais rápido que seja, tinha muita coisa para a edição de amanhã do jornal e, quando terminei, não dava mais tempo. Tenho redigido no hotel, para não ficar carregando laptop. Amanhã – daqui a pouco – levanto cedo para garantir meu ingresso na gala de Little House, o novo filme do mestre japonês. E vocês aí – já viram Família em Tóquio? Vejam, e depois me digam se não tenho de correr atrás de Yoji Yamada.

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