As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Alita! (E não é que eu curti o anjo de combate?)

Luiz Carlos Merten

22 de fevereiro de 2019 | 09h08

Memória é coisa traiçoeira e ontem, ao redigir o post sobre a morte de Albert Finney, disse que ele participou de grandes filmes, de grandes diretores. Até aí, pura verdade. Citei, como seu maior papel da maturidade, o cônsul de À Sombra do Vulcão, de John Huston, que lhe valeu uma de suas tantas indicações para o Oscar, mas não foi. Em 1983, Finney também foi indicado para o prêmio da Academia por sua interpretação como o velho ator shakespeariano que mantém aquela relaçãio de amor e ódio com seu fiel camareiro. O filme, The Dresser, adaptado da peça de Ronald Harwood, chamou-se justamente assim, O Fiel Camareiro, nos cinemas brasileiros e foi brilhantemente dirigido por Peter Yates, que criou aquela cena magnífica da ‘fabricação’ da tempestade no palco. O próprio Yates foi indicado para melhor diretor, e concorreu com o Ingmar Bergman de Fanny e Alexander, mas quem levou foi James L. Brooks, por Laços de Ternura e isso, senhores, é Hollywood. That’s entertainment! Só para fechar, Tom Courtenay, o camareiro, também foi indicado com Finney pelo Yates e ambos se anularam, permitindo que levasse o Robert Duvall de A Força do Carinho, que era bom, mas não o melhor. Postos os pingos nos is, vamos ao tema do post, propriamente dito, e vai ser Alita, o Anjo de Combate. Passei um dia esquisito, ontem, me sentindo mal, e não apenas pelo problema nas vias altas. Havia começado com antibiótico, mas toma tempo. No jornal, sofri bullyng, por motivo que não vale enumerar. À noite fui ver Alita, que era um projeto de James Cameron, adaptado por Laeta Kalogridis, corroteirista de Avatar, e ele do mangá de Yukito Kishiro. O filme ficou muito tempo em banho-maria, à espera de uma brecha na agenda do superdiretor e produtor, que terminou por desistir e passou Alita para Robert Rodriguez. Esse é aquilo. Um cineasta-montanha-russa, com uma carreira mais cheia de altos e baixos, muitos baixos, que atração de parque de diversões. Alita conta a história da garota cuja parte vital é resgatada do lixo. Desmemoriada, nesse mundo futurista e distópico (alguma dúvida?), ela é salva pelo dr. Christoph Waltz e recupera suas habilidades para vencer todo tipo de robô – e humanos – que cruzam seu caminho. A trama tem algo de Transformers – o conflito galáctico de Autobots e Decepticons transferido para a Terra -, mas o que eu gostei, e gostei muito, devia estar precisando, foi do tema do amor. Alita apaixona-se por um garoto das ruas e se questiona – ser ou não ser? – se um humano pode amar uma ciborgue? É justamente o amor que, com seus desdobramentos, abre o caminho para a sequência que ainda não se sabe se virá. Antecipado como fracasso, o filme até que vem se saindo bem nas bilheterias – não aqui; ontem éramos uns dez na gigantesca sala 1 do PlayArte Marabá, às 21h30 -, mas o problema é que a produção é muito cara. Esse primeiro exemplar não saiu por menos de US$ 200 milhões. É muito dinheiro. Alita, a personagem, como o Gollum, foi criada por motion capture, e assim como os do Gollum, os olhos dela receberam tratamento especial para ficar mais próximos do mangá. O filme tem três vencedores do Oscar, todos de coadjuvantes. Chris Waltz, é um fato, não nasceu pra ser do bem (na tela). Quanto pior, mais desumano e perverso, o personagem, melhor ele se sai. Não é o caso do dr. Ido. Mahershala Ali faz gênero, e é curioso como seu vilão tem algo do deslocamento do músico de Green Book. Mas é um vilão por procuração, como se descobre… Olha o spoiler! Quem se sai melhor é Jennifer Connelly, cada vez mais magra e etérea. Sua vilã termina por redimir-se vestida de branco e, embora não tenha nenhuma densidade psicológica – é mangá, p… -, a atriz segura a onda. Deliro, eu sei, mas Jennifer precisaria encontrar seu Luchino Visconti, ou seu Pier-Paolo Pasolini. Ela me passa a impressão de desencarnada, como a Mangano. O que funciona é a dupla Rosa Salazar/Keean Johnson, que eu não sei de onde saíram, nem vou pesquisar (agora). Como velho romântico empedernido que sou, adorei-os. Mas não chorei, viram?, que o meu dia ontem não estava para lágrimas.

Tendências: