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Aline, poderosa Vênus Negra!

Luiz Carlos Merten

15 Setembro 2018 | 10h16

Fiz uma busca agora, porque estava realmente curioso. Ananda Costa, por Bibi, e Regina Duarte, O Leão no Inverno, estão indicadas para o Shell, o Tony do teatro brasileiro. Queria saber das nossas deusas black. Aline DeLuna foi indicada na edição passada por Josephine Baker – A Vênus Negra. Que que é essa mulher? Lucelia Sergio nem entrou nas cogitações do prêmio por sua Neusa Suely em Navalha na Carne Negra. Gosto muito do Otávio Müller ator, mas não tenho muito registro de haver acompanhado suas incursões pela direção de teatro. Otávio é maravilhoso em Benzinho, de Gustavo Pizzi, que acaba de ser indicado como candidato do Brasil no Goya, o Oscar do cinema espanhol. Me fez chorar o p…, quando diz para Karine Telles que gostaria de fazer dela rainha e lhe dar tudo o que merece, e ela retruca dizendo que preferia ganhar com seu trabalho, seu esforço. Fui ver Josephine Baker um pouco pela personagem, mas também, e talvez principalmente, pela direção de Otávio. Descobri uma atriz extraordinária, Aline. Negra norte-americana que descobriu a discriminação e o racismo em seu país, Josephine Baker virou estrela na França. Folies Bergères, cinema. Transgrediu no palco, na vida. A indústria do showbiz quis fazer dela a rainha da jungle. Era alta, desengonçada, careteira. Assumiu sua sensualidade com, ou como, deboche. Resistiu a tudo. À dominação dos homens, ao nazismo. Impossibilitada de ser mãe natural, foi adotiva. À tragédia que poderia ter sido sua vida, respondeu com atitudes clownescas. Provou da fruta do conde, e virou condessa. O texto de Walter Daguerre dá conta de sua personalidade singular, mas a direção não quer sublinhar a tragédia. Faz de Josephine Baker a celebração do espetáculo, do corpo. Aline é… 10! Canta, dança e até quando está parada, em cena, tem um corpo que vibra. Josephine lutou para ser reconhecida como mulher e artista, não como artista negra. Aline é poderosa no palco do Sesc 24 de Maio. Mulher, negra (sim!), artista (100%). Ela abre o espetáculo conversando com a plateia. Lembra o tio gay, que amava as divas e a fez descobrir Josephine. A gente sempre termina por colocar suas referências no que vê. Lembrei-me da Vênus Negra de Abdellatif Kechiche, e o filme era sobre a glorificação de um corpo martirizado – e também sobre o martírio de um corpo glorificado. Lembrei-me de Donyale Luna, a negra gigantesca que reinou nas passarelas nos anos 1960 e que Federico Fellini transformoiu em depositária do fogo, da vida. Do meio de suas pernas, da suas fenda, saía a chama que reacendia a virilidade do garoto impotente de Satyricon. Gostei muito-muito de Josephine Baker. Espero ter a oportunidade de conversar com o Otávio Müller diretor. Otávio é meio ogro, tem aquele olho torto – espero que ninguém considere que estou sendo ofensivo, logo eu, que sou uma súmula de defeitos, físicos, inclusive. Gosto demais desse cara. E amei a sua Josephine.