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Alguma coisa não está fechando na equação dos ‘Mandamentos’

Luiz Carlos Merten

01 de fevereiro de 2016 | 01h16

Como toda imprensa, estou sendo bombardeado pela assessoria da Paris Filmes com informações sobre o megassucesso de Os Dez Mandamentos. O filme teria feito 600 mil ingressos somente na quinta-feira, 28, e isso equivale à quase metade do que fez, no primeiro fim de semana inteiro, Tropa de Elite 2, que a dita assessoria da Paris já apresenta como o antigo campeão de bilheterias do cinema brasileiro. A Paris anuncia que, entre ingressos pré-vendidos e a estreia, Dez Mandamentos fez mais de 2,4 milhões de espectadores. É gente que não acaba mais. Pautado por meu editor, percorri alguns cinemas para aferir os resultados, e por isso voltei mais cedo de Tiradentes. Escolhi o PlayArte Marabá, um cinema popular, de rua, do Centrão, e um sofisticado de shopping, e foi o Arteplex Frei Caneca. Cadê o público? Vi o filme no Marabá, na maior sala da casa, e éramos 13 (13!) na sessão das 11h30.Terminou depois das 13h30, colhi alguns depoimentos e corri para almoçar num alemão com o Dib e o filho dele, Heitor. Corri ao Frei Caneca para acompanhar o final da sessão das 14 h. Na porta da sala, a funcionária que controla o acesso contou para mim o número de ingressos. Cerca de 50, numa sala de mais de 200. Ali mesmo, colhi informações de que, no Cinemark Eldorado, no sábado à noite, 19 h, O Bom Dinossauro, que está em cartaz há semanas, lotou rapidamente, enquanto sobravam lugares para o épico bíblico da Record. Meu colega, Júlio Maria, enviou um e-mail informando que ontem, no Bourbon, uma funcionária lhe disse de ‘alguém deles’ (do filme/da Record) comprou a lotação inteira de domingo e só havia lugares disponíveis para hoje, segunda. Ela se recusou a dizer, no entanto, se a sala estava cheia. Por dúvida das vias, ao sair do jornal, quase 9 da noite, voltei ao Marabá, onde outra funcionária me informou que, na última sessão do dia, havia um espectador (um!) na sala e que na anterior foram vendidos 31 ingressos. Não estou entendendo nada. Que sucesso é esse, contabilizado a partir de salas vazias, ou quase? A funcionária da noite no Marabá arriscou sua interpretação – já é carnaval, a cidade foi tomada pelos blocos. Tudo bem que os crentes não são (muito) carnavalescos, mas ela, se pudesse, estaria sambando na avenida. ‘Diga, espelho meu…’ Vou deixar para falar sobre o filme, propriamente dito, amanhã! Mas confesso que estou meio perplexo. A Record, que já bateu a Globo com a novela Os Dez Mandamentos, nas cenas da abertura do Mar Vermelho, quer levar a guerra para os cinemas? A Globo Filmes é parceira do ‘ex’-campeão, Tropa 2. Mas será, mesmo, ex? Pensei comigo, cá com meus botões, por que ninguém aproveita para trazer de volta Os Dez Mandamentos de Cecil B. de Mille, de 1956? De Mille era um reacionário, foi desprezível na época do macarthismo, mas saiu um álbum sobre a carreira dele nos EUA. Numa de minhas junkets, na Barnes and Noble de Nova York, até pensei em comprar o livro, mas é muito grande e pesado. Martin Scorsese assina a introdução. Põe De Mille nas nuvens, entre os maiores. O velho era fissurado pela Bíblia, mas o que buscava – e encontrava – no livro sagrado era o binômio sexo + violência. A roteirista Vivian de Oliveira e o diretor Alexandre Avancini são crias de De Mille. Moisés pode ser um fiel servo de Deus, um profeta, mas também é homem. A cena em que acorda do sono e vê a futura mulher é ‘demilleana’. Guilherme Winter, que faz Moisés, quase come a mulher com os olhos. Pessoalmente, foi a cena de que mais gostei no filme – a única? Concentrar uma novela de cento e tantos capítulos em duas horas é coisa de louco. Avancini recorre ao narrador para juntar os fragmentos de sua história. E já que voltei de Tiradentes, onde o tema foi ‘espaços em conflito’, o grande problema de Os Dez Mandamentos é o espaço decorativo e os conflitos frouxos. Mas eu confesso que até gostei de algumas coisas (ou cenas). Só estou confuso quanto aos números.