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Alberta, Colorado

Luiz Carlos Merten

23 de julho de 2012 | 08h35

Meu desabafo no post anterior deixou de fora um elemento importante na minha, vamos dizer assim, ‘indagação’ estética e até existencial. O tiroteio em Alberta, Colorado, na pré-estreia do ‘Batman’, deve acirrar o preconceito contra o cinema de ação. Há 11 anos, outro massacre foi creditado à influência de ‘Matrix’. E esse, agora? O criminoso, segundo entendi, se apresentou como Coringa, o personagem de Heath Ledger no filme anterior da série de Christopher Nolan. Havia gostado do 1, mas foi o 2 que me chapou – e fez ver quanto Nolan é bom. A cena em que Batman e o Coringa se confrontam e um complicado movimento de câmera, que até hoje não entendi direito como foi feito, colocou as caras invertidas de um e outro no mesmo plano e aquele prodígio não foi apenas técnico, mas a essência da discussão de Nolan sobre as projeções, e os duplos, que já vinha desde ‘Amnésia’, do qual não havia gostado. E o Batman 2, ‘Cavaleiro das Trevas’, tem a cena em que Christian Bale se vale do sistema de espionagem eletrônica que desenvolveu para localizar Aaron Eckhart e depois, para não ceder à tentação totalitária, pede a Morgan Freeman que o apague, ou é o próprio Morgan Freeman que, espontaneamente, o apaga. Em plena era restritiva de Bush Jr., no clima de patranoia pós-11 de Setembro, a defesa da democracia, o direito à privacidade. O terrorismo volta como tema no 3. É o grande tema da era astual. Como resistir a essa violência que parece irracional, mas obedece, quase semnpre, ou sempre, a um objetivo tortuoso? No sábado, o ‘Estado’ publicou um texto assinado por um político norueguês. Quando o público do país passou a pedir mais repressão para evitar nova tragédia nos moldes da do ano passado, ele defendeu que o totalitarismo não resolve e que a arma contra isso é a democracia. Abertura, transparência, debate de ideias. Ainda não vi ‘O Cavaleiro das Trevas Ressurge’ inteiro, mas a parte que vi na semana passada me deixou num estado de exaltação. Saí do cinema com a cabeça fervilhando. Nenhum filme cabeça, e certamente não o ‘Fausto’ de Sokúrov, me provocou esse impacto. A construção do herói, o garoto indo a Bruce Wayne para lhe dizer o que o Batman representa. O tom compassivo do mordomo, Michael Caine, narrando sua experiência naquele café à beira do rio Arno, em Florença. Michael Caine! Quando é ruim, quando se desintreressa do papel, é péssimo. Mas quando é bom – aqui, em ‘O Homem Que Queria ser Rei’ (de John Huston) ou ‘Jogo Mortal’ (de Joseph L. Mankiewicz), é maravilhoso. Só espero que a repercussão de Alberta pode repercutir na recepçãop ao filme, ah, isso pode.

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