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Ainda Victoria e Mulher Maravilha, o tal empoderamento

Luiz Carlos Merten

21 de novembro de 2017 | 09h31

Lá vem o chato, de novo, que se considera dono da verdade. Juro que não, mas me exaspera, como jornalista de cinema, a leviandade dos autoproclamados ‘críticos’. Vi ontem, na Folha, en passant, uma chamada que define Victoria e Abdul como um filme sessão chá das 5. Só se for no Congresso Nacional – um filme sobre uma tentativa de golpe, em que um indiano, como nossos índios, é tratado daquele jeito pelos poderosos… Só estou voltando ao filme de Stephen Frears para reforçar algo que talvez não tenha ficado claro no post anterior. Victoria e Abdul não só não repete A Rainha – está mais próximo de Sua Majestade, Mrs. Brown – como está na contracorrente do outro filme do diretor. A Rainha era sobre como um plebeu – o premier trabalhista – salvou a monarquia inglesa, num momento em que Elizabeth II despencava na apreciação de seu povo por não querer prantear a princesa Diana. Victoria e Abdul é agora sobre uma intriga palaciana para destituir a rainha. É um filme em que se discute o intestino real – se Victoria cagou ou não – é bem apropriado para o horário do chá, não? Isso posto, espero não estar superdimensionando Victoria e Abdul – exceto no quesito interpretação, realmente 10. Aproveito o post, que não deixa de ser sobre a limitação de mulheres poderosas – Victoria pode reinar sobre o mundo, mas tem plena consciência de que não poderá proteger seu ‘munshi’ -, para retomar um aspecto interessante de Liga da Justiça, que se refere à Mulher Maravilha. Comprei na semana passada uma dessas revistas norte-americanas, que não estou encontrando agora. Não sei exatamente o que James Cameron andou falando sobre a Mulher Maravilha – certamente mordido pelo sucesso do filme de Patty Jenkins -, mas nas frases da tal revista, que não me lembro se é Empire ou Total Film, a diretora retruca que, por não ser mulher, Cameron não tem noção do que representam para as mulheres a personagem e o sucesso do filme. Tenho pensado que, de novo em Liga da Justiça, Diana/Wonder Woman arma o circo, mas no limite é o homem que vem resolver a parada. Batman é um zero – sua única habilidade é ser rico – e Diana agrega o grupo, mas, para vencer o Lobo das Estepes, só… O kriptoniano! O que nos leva de volta a um clássico de Howard Hawks, que eu continuo amando, mas que talvez seja hoje incorreto, nesses tempos de empoderamento feminino. Hatari!, de 1962. John Wayne lidera os homens na planície, caçando animais vivos para zoos (e isso é outra coisa incorreta, atualmente). Elsa Martinelli reúne os homens em casa, ao redor do piano. Na visão de Hawks, o homem defronta-se com a natureza e a mulher se identifica com ela. Elsa vira a mãe substituta do elefantinho! O empoderamento, afinal, talvez seja relativo. Faz sentido nesse mundo falocrático, em que o feminicídio segue sendo um problema, e grande.

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