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Ainda Truffaut, e Lasse Hallstrom, e Elsa Martinelli

Luiz Carlos Merten

10 Julho 2017 | 10h11

Isso já está pegando mal – e para mim mesmo. Falo mal do caráter do falecido (François) Truffaut, que fez carreira destruindo as reputações de colegas críticos e cineastas, mas eu volta e meia não resisto a pesquisar o que os coleguinhas escrevem, e tenho vontade de cortar os pulsos. Todo mundo é crítico, atualmente. Não. Todo mundo escreve sobre cinema, o que é diferente. Truffaut dava nomes. Esculhambava Louis Marcorelles no L’Express, dizia que não entendia mais a linguagem dos Cahiers, e isso ainda nos 70. Odiava o válido, não válido. Eu odeio o televisivo, o superficial como conceitos vagos para desqualificar um filme, ou autor. Paulo Francis dizia que o cinema, em relação à literatura, é uma arte superficial, e isso, sim, me parece interessante discutir. Truffaut considerava o cinema uma arte de prosa – definitivamente. Dizia que o objetivo do cineasta, como artista, era filmar a beleza, mas sem parecer que está fazendo isso, ou sem qualquer indício de pretensão. Truffaut odiava o cinema de Michelangelo Antonioni. Achava-o ‘indecente’. Antonioni! Eu confesso que volta e meia estou me questionando o sentido das coisas, do cinema. Questionando a mim mesmo. Escrevi aquele post ontem sobre Lasse Hallstrom (e As Quatro Vidas de Um Cachorro), depois de pesquisar e encontrar toda aquela polêmica sobre o vídeo com supostos maus tratos ao cão ator, que omiti. Supostos? O produtor divulgou uma carta aberta dizendo, sem se eximir de responsabilidade, que o vídeo foi editado para provocar determinado impacto e que, na íntegra, não tem o mesmo sentido. Eu volta e meia me pego vendo velhos westerns – índios vs. Cavalaria -, todos aqueles cavalos caindo sob a fuzilaria ou a saraivada de flechas, e me perguntando quantos deles quebravam a pata, morriam? Naquela época, nem os índios eram respeitados, que dirá os animais. Aliás, acho que Sobral Pinto foi pioneiro no Brasil, invocando o código de defesa dos animais, que não era cumprido, para defender o líder comunista Luiz Carlos Prestes, durante a ditadura Vargas. O assunto ficou comigo – maus tratos – porque à tarde, no jornal, fui enterrar Elsa Martinelli. O espaço era pequeno, e haveria muitos outros filmes para citar, além daqueles quatro ou cinco que evoquei. Além de A Um Passo da Morte, de Andre De Toth; Donatella, de Mario Monicelli; Hatari!, de Howard Hawks; O Processo, de Orson Welles; e Gente Muito Importante, de Anthony Asquith, Elsa esteve, com seu talento e beleza, em muitos outros filmes, como A Longa Noite de Loucuras, de Mauro Bolognini, com roteiro de Pier Paolo Pasolini; Rosas de Sangue, o filme de vampiras lésbicas de Roger Vadim; A Décima Vítima, de Elio Petri; A Amiga, de Alberto Lattuada; e até num cultuado giallo de Lucio Fulci, Uma sobre a Outra etc. Mantenho, porém, o que escrevi no jornal. Se fosse preciso escolher um só filme para definir Elsa Martinelli como uma das mais sofisticadas atrizes italianas de sua geração (a mais?), seria o de Hawks. Amo Hatari!, mas nessa nova conformação de mundo, e arte, pergunto-me se ainda existe respaldo crítico para um filme que toma a ligação hetero como parâmetro e conta a história de caçadores de animais vivos para zoológicos – num momento em que circos e zoos são colocados em xeque justamente por abrigar animais selvagens? Hatari! virou uma peça de museu? Mas o filme é tão vivo. E Elsa, com seu filhote, ao som do Passo do Elefantinho, é tão bela. Uma das mais emblemáticas imagens de maternidade do cinema. Também isso não pode mais? Vou parar com o post antes que me acusem de estar tendo um surto de (Jair) Bolsonaro. O Torquemada campineiro? Jamais!