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Ainda os melhores de 2016

Luiz Carlos Merten

03 Janeiro 2017 | 11h20

Por uma questão de dias Eu, Daniel Blake não entrou na minha lista de melhores de 2016. O belo longa de Ken Loach vencedor da Palma de Ouro estreia nesta quinta, 5. É um dos grandes filmes de Loach, senão o maior de todos. E ele não abriu mão, nesse mundo de direitismo galopante, de permanecer um velho gauche. O colapso do sistema de saúde britânico, o colapso desse neoliberalismo que atira para o mercado a solução de todos os problemas e o problema, de verdade, é que o mercado, sendo competitivo, está se lixando para os dramas humanos. Voltamos – quer dizer, ‘eles’ querem – ao tempo da conquista do Oeste, do novo Oeste. Matança de índios, e os índios são todos os outros, o gatilho mais veloz. Andei dando uma olhada nas listas do The Guardian e do The New York Times. Tenho visto um clamor por Moonlight, de Barry Jenkins, e só quero ver se o filme vai para o Oscar. Três momentos na vida de um homem, um negro gay forçado a mascarar sua identidade sexual e, por isso, ele vai mudando de nome, ao longo desses diferentes segmentos. Li coisas lindas sobre Aquarius and the great Sonia Braga, sobre Toni Erdmann e o coreano Handmaiden, que entrou em muitas listas. Esse nosso circuito exibidor é o ó. Está formatado para abrigar os megassucessos de Hollywood, que estreiam instantaneamente, mas os demais filmes… Fiquei muito contente de ver que o romeno Aferim!, de Radu Jade, entrou em mais de uma lista. Tão bonito… Nunca tive dúvida de que o Béla Tarr e o Ermanno Olmi, O Cavalo de Turim e Os Campos Voltarão, fossem meus melhores filmes, com os nacionais Aquarius, de Kleber Mendonça Filho, e Boi Neon, de Gabriel Mascaro. O estado do mundo reflete-se nessas quatro obras viscerais. Os demais filmes confesso que mudavam a toda hora. Em alguns momentos optava por Botão de Pérola, de Patricio Guzmán, que foi para meus dez mais, em outros por Fogo no Mar, de Gianfranco Rosi. Indignação, de James Schamus, foi outro que me tocou muito pelo diálogo adulto, raro de se ver num filme norte-americano ou de qualquer outra nacionalidade. O novo Sete Homens e Um Destino, de Antoine Fuqua, o maior diretor negro do mundo, entrou por uma cena específica, quando o mestiço crava a faca no índio que se aliou ao desumano dono de terras, que só pensa em ampliar seu império, e diz ‘Você é uma desgraça…’ Metaforicamente, passei o ano cravando facas imaginárias – Dostoievski: espero não ser condenado por crime de intenção -, em políticos, empresários e jornalistas (também!) que foram a própria encarnação da desgraça que assola o gênero humano, no Brasil em 2016. Desisti de colocar Como Eu Era Antes de Você, apesar de Sam Claffin, nos meus dez mais, mas empaquei justamente no décimo. Isabelle Huppert, mas por qual? Gostei menos de Elle na revisão – havia ficado impactado pelo filme de Paul Verhoeven em Cannes – e mais de O Que Está por Vir/L’Avenir, de Mia Hansen Love, que havia visto em Berlim. Terminei optando por Alexander Sokurov, Francofonia. O interessante é que encontrei numa resenha do TNYK o que estava pensando. ‘O lúgubre thriller de Verhoeven e o meditativo drama familiar de Mia. Cada um desses ótimos filmes tem suas falhas conceituais de direção – o sexismo reflexivo de Verhoeven e a condescendência geracional de Mia.’ E o crítico (A.O. Scott) prossegue. Miss Huppert transcende todas as limitações. ‘É a mais ferozmente intuitiva e a mais serenamente inteligente atriz em atividade no cinema atual.’ Isabelle ganhou dois prêmios de interpretação em Cannes, presidiu o júri do maior festival do mundo. Nenhum Oscar – nem indicação. M… de prêmio. Pois apesar de reconhecer que ela é a melhor, sinto-me inclinado a atribuir meu prêmio pessoal a Adriana Urarte, a Julieta de Almodóvar. Gosto demais do filme de Pedro.