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Ainda o Oscar. E o palco do Dolby Theatre virou cenário de…metáforas

Luiz Carlos Merten

27 de fevereiro de 2017 | 23h33

Na redação, me pediram hoje uma análise do Oscar para a capa de amanhã. O imbróglio – a cagada monumental, não uma simples gafe – entrou para os anais e ainda deve render muito, nem que seja nas redes sociais. Não esperei pela diagramação. Escrevi um texto batendo nos 5 mil caracteres. O espaço era mínimo – 10% disso. Não enxuguei o texto. Trucidei, mas acho que consegui manter a essência. O texto integral não se perdeu. Já deve ter subido no online. Reproduzo parte dele no blog.
Havia uma polarização entre os filmes de Damien Chazelle e Barry Jenkins no Oscar. Ela foi sendo construída ao longo dos 40 dias entre o anúncio dos indicados e a premiação. La La Land foi indicado em 14 categorias, um recorde. No dia do anúncio, imediatamente criou-se a polarização entre La La Land e Manchester à Beira-Mar, de Kenneth Lonergan. A posse de Donald Trump e suas primeiras medidas – que provocaram repúdio na classe artística – foi que levaram à nova polarização. Oscar so white, mexicanos, imigrantes, negros. De repente, Moonlight – Sob a Luz do Luar passou a ser o filme certo para o momento. Um filme sobre inclusão, sobre um garoto negro, gay e pobre que precisa forjar identidades para ser aceito no mundo. Vive as vidas dos outros antes de se confrontar, no episódio final do filme, com a possibilidade de viver a própria vida. Comparativamente, o casal – branco de – La La Land parecia um retorno ao Oscar so white. Não era. O jazz, essencial dentro do filme, abraça a questão da negritude. Conflito entre tradição e modernidade. Ryan Gosling quer ser um revolucionário do jazz, mas está ligado à tradição. E o jazz é um corpo vivo, como o filme de Damien Chazelle mostra.
A questão é – a confusão da premiação fortalece ou esvazia a vitória de Moonlight? A Academia, dividida, celebrou a polarização que marcou toda a 89.ª edição do seu prêmio. Melhor direção (e outros cinco prêmios) para Damien Chazelle, melhor filme (e outros dois prêmios) para Barry Jenkins. O problema é que, no clima de confusão que se estabeleceu no palco do Dolby Theatre – a equipe de La La Land, que parou seus agradecimentos, a de Moonlight que agora corria contra o tempo, tentando dizer alguma coisa nos minutos finais da cerimônia que se encerrava –, todo mundo falou a mesma coisa. São filmes sobre a necessidade de amor, sobre solidão, sobre dar e receber. La La Land passa um pouco o sentimento de derrota. Ryan Gosling e Emma Stone chegam lá, mas… Não há happy end. A cena do palco metaforizou o filme. Moonlight vai na contramão. Black tem agora uma possibilidade real de viver suas emoções. O filme também, pois venceu.
Havia essa fantasia de que o Oscar seria marcado por atos contra Trump. Meryl Streep dera o tom ao receber a homenagem no Globo de Ouro. Mahershala Ali, o melhor coadjuvante (por Moonlight), como negro e islâmico, foi incisivo no Actors Guild. O problema é que todo mundo passou no Oscar a impressão de recuo. Mahershala não foi tão duro, Viola Davis, melhor coadjuvante por Um Limite entre Nós, de Denzel Washington, não foi longe nas questões da pobreza e do racismo, como tem ido nas entrevistas. Sobraram as provocações de Kimmel – o aplauso para Meryl Streep, os twitters para Trump. De forte mesmo, nessa noite decepcionante, só o Oscar de filme estrangeiro. Para O Apartamento, do iraniano Asghar Farhadi, o filme certo para o momento. Farhadi não foi. Fez ler um documento manifestando repúdio ao decreto de Trump que veta nos EUA a entrada de cidadãos de sete países de maioria muçulmana, incluindo o Irã. O filme foi ovacionado, e, aí, sim, houve uma tomada de posição. Sutilmente, ela prosseguiu, mas terá sido mera coincidência? Ninguém podia garantir a vitória de Farhadi, mas logo veio um mexicano, Gael García Bernal, apresentar os prêmios de animação, e ele foi aplaudidíssimo. E, depois de Gael, outra mexicana – Salma Hayek, também muito aplaudida ao anunciar o prêmio de curta documentário. Esses 15 minutos compuseram o núcleo duro, politizado, do Oscar. E nem falei de Justin Timberlake, naquela abertura. Como espetáculo, pela mundanidade, não houve nada melhor no 89.º Oscar.

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