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Ainda o lugar…

Luiz Carlos Merten

25 Janeiro 2015 | 11h01

TIRADENTES – Deveria ter colocado uma interrogação no título do post anterior. O lugar para comer pipocas? Porque sem a interrogação a ironia fica muito subjetiva e parece que acredito no que está escrito. O cinema para mim é bem mais o lugar da resistência, da contestação, da busca. Como falo com todo mundo, de diretores ‘comerciais’ aos mais cabeça do pedaço, percebo que todos buscam alguma forma de se expressar. Tem gente que acha uma m…, mas hoje em dia é quase impossível pensar a mulher brasileira contemporânea sem ver o que está subentendido nas comédias de Roberto Santucci com Ingrid Guimarães. A questão permanece. Qual é o lugar do cinema? O lugar físico? Imaginário? Anos atrás, nem sei quantos, mediei um debate no Rio Market do Festival do Rio. Era um debate sobre as novas plataformas, incluindo cinema para celular. Quem ia mediar teve um problema, havia participantes que falavam inglês, francês, espanhol, e eu terminei fazendo meu papel. No final, admiti, e foi motivo de riso, que, se eles (os participantes), tivessem razão e o futuro do cinema estivesse nessas novas plataformas, e no celular, eu teria de parar com o cinema, porque nem celular tenho. Lembro-me de uma coisa que disseram. Os diretores, produtores etc teriam de encarar a existência de um espectador cada vez mais dispersivo. É sempre possível fazer duas ou três coisas ao mesmo tempo, mas hoje em dia, com um olho nos dispositivos que lhe permitem seguir as redes sociais e outro na tela, o espectador acha que está seguindo o filme, entendendo a história, mas na verdade não está imerso e perde o que no fundo é a essência do cinema – a imersão na simetria audiovisual criada pelo diretor. Entender a história não esgota as possibilidades cognitivas que o cinema nos oferece.  vLembro-me do choque que tomei ao (re)ver Dois Destinos, de Valerio Zurlini, numa daquelas sessões de clássicos que Adhemar Oliveira fazia no Espaço Augusta. Era um dos, talvez o filme da vida de Carlão Reichenbach. É curioso, desentendíamo-nos, mas amávamos os mesmos filmes – Dois Destinos, o Scarface de Brian de Palma. O choque – não me lembro se imediatamente, mas logo em seguida vi o Speed Racer dos irmãos Wachowski, e era o Dois Destinos, a Cronaca Familiare dos blockbusters! A mesma visceralidade, o mesmo sofrimento na relação amorosa de dois irmãos. Chorava vendo o filme dos Wachowski. Era tão dilacerante. Existem autores que gostam de trabalhar com nada, tipo Yasujiro Ozu. Outros necessitam e querem tudo, como Stanley Kubrick. O último Alain Resnais e foi mesmo o último filme dele, era uma m… Não muda o fato de que ele fez um dos filmes da minha vida (Hiroshima, Meu Amor), e mais um (Providence). O último Woody Allen, mas no caso dele já existe outro e existirão muitos (espero), também é uma m…, mas muita gente defende como cinema de autor. Eu quero mais é celebrar a autoria de Christopher Nolan, de Zach Snyder, cujo Superman é maravilhoso. Os outros preferem os irmãos Coen, Martin Scorsese. Os Coen fazem filmes para espectadores que se consideram inteligentes, mas a quem eles tratam como burros. O episódio do gato, no mais recente, aquele do músico, é exemplar. Todo o filme está ali. A todas essas, estou tergiversando. O que quero dizer é que, ao longo da história, tivemos saltos no cinema, em parte ditados pela técnica. O advento do som eliminou as longas fusões do cinema silencioso, todo um estilo de narrar cujo grande representante talvez fosse F.W. Murnau. A TV, e Alfred Hitchcock foi essencial, incorporando suas técnicas em Psicose, mudou a forma de narrar, porque o público passou a ter a percepção da cena como um todo antes mesmo que ela estivesse completa na tela, e quando prosseguia parecia ‘chato’, ‘desnecessário’. Ao contrário de Felipe Bragança, que acha que o cinema nunca existiu, é uma alucinação coletiva, eu, que creio que ele existe, acho que, como sempre, vai encontrar caminhos e formas de sobrevivência. Assim espero.