As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Ainda o cinema sonhado, o legado de Chick Fowle

Luiz Carlos Merten

22 de janeiro de 2019 | 08h59

No post de ontem, sobre O Cinema Sonhado, imaginei escrever uma coisa, mas fui-me deixando levar e saiu outra. O próprio Ugo Giorgetti é o entrevistador que conduz, em primeira pessoa, a viagem de seu documentário. Lá pelas tantas, surge o nome do mítico operador Chick Fowle, inglês que Alberto Cavalcanti trouxe para o Brasil e foi decisivo na Vera Cruz (e no cinema paulista), fotografando O Cangaceiro e O Pagador de Promessas, mas também Tico-Tico no Fubá, Floradas na Serra e Ravina. No Chile, assistindo aos clássicos mexicanos na Cineteca, fiz uma pequena digressão sobre a contribuição do olhar estrangeiro ao cinema latino-americano. Chick Fowle no Brasil, Alex Phillips no México. Alex teve um filho, também operador, Alex Phillips Jr, e para mim as trajetórias se confundem. Fui pesquisar e o pai nasceu no Canadá. Muito jovem, mudou-se com a família para a Rússia, mas eram os estertores do regime czarista e ele preferiu voltar ao país de origem. Conheceu, e tornou-se amigo de Mary Pickford. Queria ser ator e tentou fazer carreira nos EUA. No começo dos anos 1930, estabeleceu-se no México, já como diretor de fotografia. Sua filmografia deve ser uma das mais extensas do mundo. Mais de 250 filmes no México, outros 150 nos EUA. No início, por seu claro/escuro, ele era considerado expressionista. Atravessou os anos de ouro, fotografou para Luis Buñuel e chegou até Arturo Ripstein, El Castillo de la Pureza, em 1972. Assisti há alguns anos, a uma retrospectiva do melodrama mexicano no Festival do Rio. Títulos selecionados – filmes de Roberto Gavaldón, Ismael Rodriguez, Julio Bracho, Alejandro Galindo, etc. Alguns eram realmente bons, e as ‘divas’, Maria Felix, Dolores Del Rio, Marga López, maravilhosas. Mas o que me impressionava, naquele cinema de estúdio, era o rigor da imagem e dos movimentos de câmera. Alex Phillips influenciou todo o cinema mexicano – Gabriel Figueroa, inclusive, mas esse foi para a rua, para a natureza -, da mesma forma que, no documentário de Ugo Giorgetti, os profissionais destacam o legado de Chick Fowle. Nunca pesquisei sobre o assunto, e lamento que ninguém o tenha feito, mas uma simples análise das imagens dos filmes da Vera Cruz e das ‘películas mexicanas’ (Pel-Mex) produzidas nos lendários estúdios Churubusco Azteca mostram traços muito fortes na definição de uma identidade. No México, foi o encontro de Eisenstein, com seu clássico inacabado, e Alex Phillips que produziu um conceito de imagem nacional (e ambos eram estrangeiros!). Imagino que o próprio Phillips, que se fez mexicano, morrendo como tal, possa ter sido impregnado pelo ardor revolucionário, anticzarista, que deve ter percebido em seus anos na Rússia. A busca de um cinema popular, o melodrama, a comédia rancheira, seria consequência. Será que deliro?