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Ainda Gramado (e no Rio, com Fernanda Montenegro e Karim Aïnouz)

Luiz Carlos Merten

27 de agosto de 2019 | 10h07

Fui ontem ao Rio para entrevistar Fernanda Montenegro e Karim Aïnouz, que se encontraram na plateia do Teatro Oi Casa Grande, no Shopping Leblon. Na sexta, A Vida Invisível de Eurídice Gusmão inaugura o Cine Ceará e Karim recebe a homenagem do festival. Foi um encontro lindo. O Ceará tem motivos de sobra para festejar o seu cinema. No fim de semana, Pacarrete ganhou todos aqueles prêmios em Gramado – oito Kikitos. Não vou voltar ao post, mas tenho a impressão de que identifiquei Allan Deberton como diretor paraibano. É cearense! Desci no Rio pelo Galeão – o Santos Dumont está interditado para reforma da pista. O caos estava instalado no aeroporto – se soubesse, acho que teria desistido. Foi melhor no susto. Teria me privado daquela horinha com duas extraordinárias personalidades do audiovisual, e não apenas. A par de ser grande atriz dramática, Fernanda tem, na vida, o timing de comédia. Imitava Karim, o mandão. ‘Agora faz assim, assado. Vamos mudar tudo, tentar diferente.’ (O diretor no set.) E ela se curvava. ‘Sim, meu senhor.’ Como atriz, no cinema, é pau mandado. Sacerdotiza de Amon! Fernanda, nossa maior atriz! Como cidadã, lamentou a falta de grandeza do presidente. O cinema brasileiro bombando em todo o mundo e nenhuma palavra dele, nenhum cumprimento. A falta de generosidade. Enfim… Ainda sobre o Galeão. Confins, o Salgado Filho (em Porto). O que são esses aeroportos? Os corredores intermináveis, o gigantismo dos terminais, o pé direito para abrigar transformers. Socorro! Tem alguns posts que ando querendo fazer. Um deles vem a seguir. Me surpreendeu, na abertura de Pacarrete, o letreiro. Baseado numa história real – uma história real de gente anônima. Pacarrete pode ser uma personagem que marcou o imaginário do diretor, lá da terra dele. Para nós, o público, é uma desconhecida. Poderia ser uma personagem fictícia. Teria feito diferença? Como se conta uma história real como essa? Como se interpreta uma personagem real desconhecida? Existem traços de Macabeia em Pacarrete, mas não a patética humildade da nordestina de Suzana Amaral e Clarice Lispector em A Hora da Estrela. Marcélia Cartaxo faz uma Macabeia para ‘fora’, mais agressiva, brigona. É curioso, mas quando Gramado anunciou seus concorrentes e lá estava a Hebe de Maurício Farias, cheguei a pensar que seria uma lavada e não teria para ninguém. O Kikito para Andréa Beltrão. Mas aí veio a comoção provocada por Pacarrete, os cinco minutos de ovação para Marcélia. A personagem real icônica (Hebe) e a anônima (Pacarrete). Mas a Hebe de Maurício Farias, com roteiro de Carolina Kotscho, não deixa de ser uma desconhecida – para mim, foi. Sua história tem o que não deixa de ser um filtro. O filho gay, Marcelo, que faz dela, na ficção, uma militante. Já provoquei num post anterior. O filho representa o lado ‘Que Horas Ele Volta?’, o lulo-petismo no malufismo de Hebe, o filme. Hebe, a personagem, não era assim, bradaram os coleguinhas. Não é o caso, mas não pude deixar de pensar na forma como Quentin Tarantino reescreve a história, valendo-se da ferramenta da ficção, em Era Uma Vez…em Hollywood. Eu, no júri, não teria me impressionado com os cinco minutos de aplauso e teria dividido o prêmio de atriz. Essas diferentes formas de ficcionalizar personagens reais mexeram comigo. Só posso falar por mim. Não vi todos os filmes da competição – da brasileira nem da latina. Minha visão é necessariamente parcial. Do que vi, gostei muito de Veneza, de Perro Bomba e Dos Fridas (sim!). Veneza e Perro Bomba passaram na mesma noite. A fantasia do circo, o melodrama, as putas de bom coração, imaginai! A câmera na mão, a vida na rua, o realismo cru da história do haitiano excluído no Chile fundado na desigualdade social do pós-pinochetismo, cortesia dos ‘Chicago boys’. E a ‘ofrenda’, como disse a diretora iraquiana de Dos Fridas (Ishtar Yasin) – o sincretismo glauberiano na grande oferenda dos mitos revolucionários. Foram dias instigantes em Gramado.

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