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Ainda Dona Ruth, o fardo dos sonhos

Luiz Carlos Merten

29 de julho de 2019 | 10h15

Eu, às vezes, me deprimo pela forma como a gente, mesmo não querendo, termina por repetir certos padrões comportamentais. Ruth de Souza foi importante como guerreira no reconhecimento do ator negro, mas a gente fica batendo tanto nessa tecla – primeira negra a representar no Municipal do Rio, a estrelar novela, a obter reconhecimento internacional (em Veneza) -, que até se esquece do básico. Que ela foi atriz, independentemente de cor. Tinha aquela presença, aquele sorriso. Helena Ignez diria – aquela energia. Nesta semana, começa na Sala Cinemateca uma programação em homenagem aos 80 anos de Antônio Pitanga. Serão exibidos filmes raros do cinema baiano pré-Cinema Novo. A Grande Feira, de Roberto Pires, Bahia de Todos os Santos, de Trigueirinho Neto, que depois virou guru. Ruth de Souza e Grande Otelo, reverenciado por Orson Welles, abriram portas. Antônio, no documentário de Beto Brant e da filha Camila, é aquela força. Antônio Pitanga domina a cena no berro, no movimento. Ruth de Souza faz o movimento inverso. Interioriza. Em O Assalto ao Trem Pagador, de Roberto Farias, Luiza Maranhão, a Sophia Loren negra, e ela fazem as duas mulheres de Tião Medonho/Eliezer Gomes. A amante e a ‘legítima’. Uma, sensual, a outra, sofrida. Vaiado por Glauber – para atingir a ex-mulher, Helena? -, o filme é muito maior que seus críticos, até que seus exegetas. O Assalto ao Trem Pagador expõe tensões raciais e sociais. Expõe o mundo negro ao branco, a favela ao asfalto, radiografa a sociedade da época sem ter perdido a validade. Pelo muito que conquistou, com luta, com garra, Ruth de Souza impunha respeito. Mas, quando se referiam a ela como ‘Dona’ Ruth, quero imaginar, sim, que toda aquela história é verdadeira. A raça, o gênero. Tudo isso é importante, necessário, registrar, destacar. Mulher era muito mais discriminada. As carteiras de atriz e de puta eram as mesmas. Quando Helena Ignez diz que sofreu preconceito sendo mulher, nordestina e atriz, mesmo sendo branca, miss e do high society, imaginem Dona Ruth. Estou me lembrando de Werner Herzog. O fardo dos sonhos. Esse post, sem negar nada do esforço heróico, é só para celebrar Dona Ruth, a atriz. O mistério que se operava quando ela pisava no palco – foi Carolina Maria de Jesus numa versão para o teatro de Quarto de Despejo -, quando encarava a câmera. Atriz – ponto.